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10/07/2010

ESPERO


O cais está deserto. Após uma noite agitada as águas do rio batidas pelo
vento
salpicam o cenário inventado para o difícil encontro a sós que não foi
mais
que o pretexto para te ver fugazmente e sentir o sorriso que a teus lábios
aflora
quando me olhas desde o primeiro dia que me viste e neles notei o leve
entreabrir
da tua pele ao contacto do meu desejo e te toquei incendiando o meu
olhar
ao encontro do teu olhar e nele vi a réplica do beijo que  nunca se 
consumou.
Mais nada do que um adeus? Ou assim como um jogo de adiar a espera
do dia
em que num lugar mágico como no Amarcord de Felini nos abracemos e
nossos
corpos se toquem e eu grite, não me interessa o silêncio que vai tingir de
rubor
o teu rosto, sentindo tua língua a falar na minha boca no momento
fugaz do beijo
que se toma de um trago como o gin ou o fumo das cigarrilhas que
o vento fumou.

Espero
sem desesperar de te sentir desejar-me ou ao menos desejares que eu te
deseje
assim intensamente como quando respondes aos meus apelos e eu me
encho
de esperança ou quando decides esquecer um encontro por não te
apetecer sorrir
com o sorriso de te fazeres sentir agradável, insinuante e virgem como
eu gosto
de me sentir desejado, em eterno falso climax, beijando-te a face no
beijo da despedida
os meus lábios sorvendo o sabor doce de ti através da tua pele
maquilhada arrependido
de não ter jogado no teu corpo o jogo do sexo que tu adias para tornar
mais intensa
a consumação do meu desejo que por gozo invento e tu subtilmente
sempre desejaste.

Lisboa, 5 de Setembro de 2003

05/04/2009

a caminho do futuro incerto

Albert Lemoine

A caminho do futuro incerto
se joga a minha vida
e os gestos dela,
tudo se joga menos a pura
beleza daquela face
e o meu olhar nela.

Não seria capaz de viver
fora da beleza
e um olhar por vezes basta
a novidade do breve desejo
arrebatado ou o triste
aceno de despedida.

Chegar e partir abrir a mão,
apertar os lábios,
lamber as feridas,
sorver as lágrimas que caem
pelo rosto desabridas,
e não perder o trilho.

Amar o dia como a um filho
que se viu nascer,
admirar a beleza de um rosto
na aurora do anoitecer,
beleza que ilumina o caminho
e me faz crer.

Não posso viver sem a beleza
aqui onde sinto o corpo
oblíquo em delírio
ou no lugar do desejo já morto
os meus sentidos
se perdem ao perdê-la.

Lisboa, 31 de Agosto de 2003

[Variante, datada, e com outro título, do poema “Não posso viver fora da beleza”]

04/04/2009

90 ANOS

A aragem não enganava o lugar dela
nem o seu sopro poupava os corpos
correndo suave um hálito escaldante

e até a sombra das árvores mudaram
o tom da frescura conforme o género
da folhagem e a formatura das copas,

Caminhamos desde o fim dos tempos
pelos mesmos caminhos de pé posto
em que se levantam em pó os passos

e tudo mudou no lugar do seu berço
mas nada nas árvores mudou presas
nas terras revoltas a golpes de vento,

Nada mudou no olhar azul do homem
feito nas colheitas de todos os frutos
nem a nostalgia das perdas do tempo

cujo desenho do rosto perdura no viço
dos moços pequenos sentados à parte
perdidos de se largarem às suas artes,

Os adultos alinhados à mesa lembram
o relincho da charrua puxada a mãos
e rodas de canções cantadas em coro

na aragem que não mudou o seu visco
e nada mudou no lugar do nascimento
da vida que agora ressurge celebrada,

Ventura marcou o lugar no seu tempo
entoando vigoroso uma canção à terra
sagrada da pertença de todos os sonhos

noventa anos cantados a solo ali dentro
de nós com os antepassados sorridentes
olhos agradecidos à sua esperança feliz.

Santo Estevão e Lisboa, Julho de 2003