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10/03/2013

PRIMEIROS POEMAS

Não me lembro se alguma vez o postei aqui. É possível que sim e, nesse caso, aqui fica de novo. É um livro artesanal que esgotou na sua edição em papel. A Isabel Espinheira concebeu um livro/objecto muito interessante nos finais de 2007 com os primeiros poemas que escrevi, com intencionalidade poética, nos inícios da década de 80. Era para ter sido uma prenda de Natal para os amigos mas só saíu jé em 2008. Passado todo este tempo a Isabel criou uma edição em formato digital do mesmo livro. Depois de entrar neste LINK encontra em baixo uma setinha que permite folhear. Ele há dias felizes. Horas e momentos também.

06/07/2010

DIFÍCIL PARTILHA


Dói às vezes partilhar o comum dos gestos
da vida e omitir a sua parte nova e agreste,
julgando no dia claro deste Janeiro quente
e seco os passos de viver assim docemente

Crispa a pele suster no corpo o vento em riste
aceitar o cansaço do ventre a olhar o já visto,
receando de nós a própria dor do tempo carregado
para dela nos desfazermos amando o corpo amado

Mesmo que surja uma palavra a mais ou a menos
temo o gemido que leio na memória omissa,
que cor têm os cabelos ondeando no beiral
do tempo quando se abrem os braços e se grita?

Soltemos o nosso passo à desfilada
prendamos o braço ao braço que abraçamos,
experimentemos ouvir as horas na torre
e o esvoaçar da cegonha que observamos

Num golpe de olhar ouçamos os pássaros no berço
da noite e sigamos a linha quebrada do remo fendendo
a ria e os pontos mortiços das luzes no alto da colina

A respiração sustem-se no momento do passo dado
e já nada nos segue a não ser o nosso próprio riso
eco repetido no chão duro e cego da verdade

Lisboa, 21 de Janeiro de 1981

(Transcrição da versão original manuscrita no “livro de recados”)

04/08/2008

HARTZ

A Revista Digital Española de Poesía HARTZ, dirigida por RENÉ LETONA, reservou-me uma surpresa agradável. Na secção OTRAS APARICIONES surge uma breve, e simpática, resenha do meu livro artesanal “Primeiros Poemas”, realizado em parceria com a Isabel Espinheira. Os meus agradecimentos. [Réplica do Absorto.]

10/03/2008

PRIMEIROS POEMAS

A Helena um dia, antes do Natal de 2007, enviou-me uma prenda muito especial. Fiquei sem fôlego de como lhe haveria de retribuir. Foi assim que nasceu a ideia de criar um livrinho com os primeiros poemas que escrevi com intencionalidade poética. Alguns deles constavam de um quase diário que mantive, durante bastante tempo, actualizado no início dos anos 80. A maior parte tinha-os perdido de vista até uns tempos atrás. Depois fui descobrindo manuscritos. Papéis soltos. Eliminei alguns, talvez de menos. No verão do ano passado publiquei-os com a etiqueta Primeiros Poemas no Caderno de Poesia.

Este último Natal a Isabel Espinheira criou um livro que é mais do que o suporte em papel para esses Primeiros Poemas, tardios (pois sou tardio em tudo), tendo-lhes acrescentado aguarelas que para ele foram criadas e um grafismo, ao que me dizem, feliz. Assim nasceu uma micro edição em homenagem a minha mulher Guida pois, além do mais, a maioria deles lhe foram dedicados nos primeiros meses do nosso encontro feliz.

Não pensava dar-lhe publicidade. Mas a Helena, na Linha de Cabotagem, deu-se ao trabalho, por gentileza e amizade, de publicar a imagem da capa e dois poemas, assim como a Maria do Rosário Fardilha, no Divas & Contrabaixos, ainda antes, com palavras que não esquecem, já lhe tinha feito referência.
O que nos vale, nos dias mais amargos, é a amizade e a ternura dos que nos fazem sentir próximos mesmo quando estão distantes.

16/09/2007

SEM TÍTULO

Posted by PicasaLinda Elvira Piedra

O que me alimenta
é a espera
espero tudo sempre
e se me vejo esperado
desespero

Abandono-me objecto
de desejo
espero do outro
beijo o seu beijo
e desespero

Solto o grito
surdo da
submissão
alimento a espera
e desespero

Nada faço agora
em estado puro
altivo macho
decidido
desespero

Não me notam
o olhar triste
nulo
sentimento
desespero

Gosto mais
assim hoje
sem desespero algum
de escrever a palavra
desespero

Março fim

31 Março 1982

[Último poema da série "Primeiros Poemas".]

08/09/2007

SEM TÍTULO

Posted by PicasaMarina Edith Calvo

Assim mesmo se perde o vigor da escrita
se confunde o gesto e perde o paladar
à dor se acrescenta o desespero de deixar
os outros ficar eterna recordação do nada.
Nada se perde, tudo se transforma e eis
como assim sendo nos perdemos a nós
nestas lucubrações de merda ansiosos
face à morte que nos lambe a perna
esquerda que a direita se arrasta muda.

29/11/1981

06/09/2007

BUS

Posted by PicasaFotografia de Família

BUS
BUSio
aBUSio
BUSsola
arBUSto
BUSto
emBUSte
BUS
.
[Uma brincadeira, talvez de 1981, em torno de BUS, petit nom da Guida, minha mulher, no dia do seu aniversário,com algumas palavras inventadas.]

Publicado no absorto em 9 de Maio de 2oo7.

01/09/2007

O QUE EU QUERIA

Posted by PicasaPhilippe Pache

O que eu queria não posso pedir que me escapa
a sem razão de o não obter, o que eu queria era
num dia assim aberto um olhar liso e claro
na direcção do meu sorriso que espera longo.
Aguento, aguento-o dia após dia, abro e fecho
a mão, agarro o que eu queria um momento
mas no outro se me cava a ruga funda no meio
da testa e se me enche o fundo da pele de suor.
O que eu queria não o posso dizer senão talvez
a alguém que és tu que já o sabes melhor
do que eu quando digo que não falo mais nisso.
O que eu queria me desses naquele dia maduro
era um sorriso que se fixasse para sempre
no rosto que é o resto que eu tinha posto de fé
na vida para além de mim e do que eu queria.

22/9/1981

[Escrito numa folha de papel A4, ocupando, integralmente, a sua metade superior, a caneta de “tinta permanente”, sem emendas. Suponho que saiu à primeira senão ter-lhe-ia acrescentado, pelo menos, um verso.]

25/08/2007

NÃO OMITO

Posted by PicasaDouglas Prince

Não omito nada do meu gostar
nem o sobressalto de descobrir um dia
que não queria nada do que quis.
Ofereço o tempo futuro todo
à descoberta da arte de transformar
amando o desconhecido ou quase que é
afinal o que é amar.

24/2/1981

(Poema publicado, sem data, em “Ir pela Sua Mão” – 2003.)

24/08/2007

SINTO

Posted by PicasaPamela Creevey

Não me sinto mal agora sinto
a minha pele quente às vezes sinto
um nervo duro e solto do resto mais nada sinto

Não sinto a gola apertada nem o corpo sinto
apertado no estreito istmo onde me deito sinto
um corpo terno que me procura mais nada sinto.

24/2/1981

(Poema publicado, sem data, em “Ir pela Sua Mão” – 2003.)

22/08/2007

EXPERIÊNCIA - IV

Posted by PicasaBodil Frendberg - Swedish, b.1974

“Tu és em cada gesto todos os teus gestos
E neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-me estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na mesma forma de ruga
Perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
Prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
Deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
E eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
Sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.”

In “Tu estás aqui” – Ruy Belo


Se um dia eu escrevesse um poema simples
ainda denso e cheio de paz
ficaria leve como uma pena ao vento
que volteia dá mil pinos sem partir e na cabeça
criar-se-ia um silêncio raro, crente na exactidão das coisas.
Como os ruídos domésticos fazem o à-vontade
deixaria então partir esta dor no temporal direito
que quase me tolhe o braço
e com o espaço por ela deixado
faria na cabeça um barco enorme e vazio
onde tomando o lugar do tripulante solitário
rumaria em direcção àquela cova aberta à mão
que serviu de coberta à longa tarde dos quentes dias
no tempo do alento que aos poucos se apaga
e às vezes dá de caras com o preto da descrença.
Se do que fazemos nada sobrar além do que fazemos
se nada sobrar do diverso coro das nossas vozes e do falsete
do cantar grosso das canções que entoas que nunca
o esquecimento se arvore em estafeta entre uma e outra das nossas bocas.

28/1/1981

[Este é o poema original que deu origem a dois outros, um deles, sob o título “Sós” – publicado no livro “Ir Pela Sua Mão”, e o outro, se bem me lembro, publicado no Absorto. Foi escrito a lápis e o manuscrito apresenta poucas emendas.]

20/08/2007

EXPERIÊNCIA III

Posted by PicasaEric Fredine - Canadian, b.1964

Dói às vezes partilhar o comum dos gestos
da vida e omitir a sua parte nova e agreste
julgar no dia claro deste Janeiro quente
e seco os passos de viver assim docemente

Crispa a pele seca no corpo o vento em riste
e aceitar o cansaço do ventre a olhar o já visto
receando nós a própria dor do tempo carregado
que dela nos desfazemos amando o corpo amado
mesmo que surja uma palavra a mais ou menos
naquele gemido que lemos na memória omissa:
que cor têm os cabelos ondeando no beiral
do tempo quando se abrem os braços e se grita?

Paremos, soltemos o nosso passo à desfilada
pensemos, prendamos o braço ao braço que abraçamos
experimentemos ouvir assim as horas na torre
surpreender o esvoaçar da cegonha que observámos
contar com um olhar os pardais no berço da noite
seguir a linha quebrada do remo fendendo a ria
ou os pontos mortiços das luzes lá no cimo da colina

A respiração sustém-se no momento do passo dado
e já nada nos segue a não ser o nosso próprio riso
eco repetido no chão duro e cego da verdade.

21/1/1981

17/08/2007

NÃO QUERO AMAR SEM SER AMADO

Posted by PicasaPamela Creevey

Não não queria escrever assim
marcando palavras na palavra
ritual que assinala o querer amar
não descendo do alto da ilusão
de ser amado de igual a igual.

Não não queria marcar posição
na eterna luta por afirmar sexo
contra sexo num lugar cimeiro
único, transcendente e vencedor,
queria ser amado sem mexer.

Não não queria procurar alguém
antes ser procurado e devassado
ao último lugar do corpo nu
sem outro não a não ser nada
recusar ao amado corpo amante.

Não não queria degrau de prazer
sem num instante ceder ao outro,
para que nele firmasse o seu ser
todo, um grito único de liberdade:
não quero amar sem ser amado.

26/12/1980

CUSTA


Connie Imboden

Custa muito ver o rosto crispado
desfeito, lágrima contida convulsa,
na ponta da palavra nova e agreste
desespero de ver-se além do outro.

Custo julgar e mais julgar-se
ultrapassar o fosso da diferença
cair em si, destapar a fossa
das palavras não ditas, ocultas.

Não acusar as mágoas custa,
mas deixá-las cair mais além
morder o desespero do não feito
e guardá-lo, só para si, é muito.

25/12/1980

16/08/2007

PENSO


Alan Kupchick

Vi adormecer o sol abaixo das nuvens
mar límpido e céu vermelho ligeiro
e desse berço o cheiro intenso me cegou.
Vi no dia sagrado familiares de Mercedes
passear o seu orgulho e logo atrás
cambaleando de pernas arqueadas
homens que o sol não aquece
e a queda na cidade tornou assim tão
perdidos dos seus e suspensos da memória:
homens do campo que o campo esqueceu.

Reconheci pedintes agonizando à mesa
da ceia que o Cardeal não reconheceu
e à cabeceira do meu braço morrerem
nas palavras do momento ou na voragem
da idade alguns que me soletraram a palavra
vida. Esses os mais queridos que sempre
o são apesar da distância e do esquecimento
azulado da lembrança. Esqueci o que vi
no momento de ver a quem escrevia
porque vi no Natal tanta mágoa que nele
imaginei não mais te ver a ti.
Hoje agora aqui neste sussurro pensativo
não quero mais nada do que um sossego
de sono esperado, manso, nocturno e doce,
não quero mais nada que de mim saia
senão meu corpo apertado na tua mão quente.

25/12/1980

[Uma tentativa de poema de Natal, certamente, escrito em Faro. Publico-o pelo último verso que me deve ter suscitado aquela satisfação que Ruy Belo descreve em dois versos do seu poema Requiem por Salvador Allende: “Acabara um poema enchia o peito de ar junto da água/sentia-me importante conquistara palavras negação do tempo”. Por esta época já tinha lido, além de Sena, Ruy Belo como pude confirmar pela epígrafe que surge num próximo poema.]

13/08/2007

MOMENTO


Whitney Hubbs*

Há momentos da vida
que desejamos não ser
seres indesejados e densos.
Jogamos o tempo fora
na crença ingénua de
frustrar o círculo dos dias
a infidelidades certas
que assobiam ao coração
e o cansam de lutas
dolentes e o mutilam.
De querermos permanecer
sós nós próprios, desertos,
agarram-se mãos amigas
e nelas trespassam negros
dias fictícios e únicos.
Dói-me o coração agora.
Apetecia-me puxar um fio
a um outro lado preso
e suspirar um alívio
adoçado de leve beijo
de irmão não pedido
espalmado na palma
suave de alguma mão
que se tivera estendido.
Há momentos da vida
que nos desejamos livres
frios e calculistas,
planeados e ordeiros
suaves cães de trela
pacíficos e passeeiros.
Que desejamos não ser
seres indesejados e densos.

27/11/1980

[Este é o primeiro de uma série de poemas, dos quais alguns são mais longos do que o habitual, escritos, na sequência dos anteriores, entre os finais de Novembro de 1980 e de Janeiro de 1981. Este poema foi manuscrito, a lápis, em duas páginas de bloco, com três variantes e a versão final o que é raro pois, em regra, só encontrei as versões finais manuscritas e praticamente limpas de emendas. Quer dizer que os escrevi, seja qual for a qualidade do produto final, com uma evidente intenção poética.]

* Self-Portrait, Trying Not To Think Too Much About Things, 2005

09/08/2007

PALAVRA

Posted by PicasaAnne Arden McDonald

Amor amizade lua
salto loucura morte
o gesto que se não amua
aquela palavra tão doce

Agora pela vez primeira
apeteceu-me dizer aquela
palavra mágica de cera
que nos ensinaram a esquecer

Amo amor amores
sei de cor e vou dizê-la
sobem rios de rumores
em direcção ao norte.

25/11/1980

06/08/2007

RISCO

Posted by PicasaBill Kane

Arrisco em ti cansaço
juízo inteiro, o ser
igual, repetir o fracasso.

25/11/1980

[Transcrevo do manuscrito o segundo poema, escrito neste mesmo dia, que, ao contrário do anterior, alterei para publicação em “Ir pela sua mão” – 2003 - .]

04/08/2007

DIA

Posted by PicasaWhitney Hubbs

Gostei daquela calma
atenta ao corpo vivo
e lambi trinta vezes
o mal pelas raízes.

25/11/1980

(Transcrevo directamente da versão manuscrita. Neste dia, numa mesma folha, de bloco, escrevi, além deste, mais dois poemas. Este e o que se seguirá foram publicados, sem data, no livro “Ir pela sua mão”, edição de 2003.

18/07/2007

EXPERIÊNCIA II

Posted by PicasaBill Kane - USA, b.1951

Quero de ti o corpo
seio ventre aberto

Quero o beijo de ti
sei do sexo ao certo

Quero de ti isso
o lugar exacto só

Quero a mão agora
logo não sei já

Que não quero sei
é perder-me aqui

Mas perder-me sei
ao certo que me quero

Quero aonde ser
nada mais senão eu

Agora já sabes
o que eu quero

Eu é que não sei.

6/11/1980


Dístico

De uma palavra sei que tem sentido
é desespero: não importa a causa.

13/6/71

Jorge de Sena