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17/07/2010

ANIVERSÁRIO


Estou assim cansado
ao lado de meus pais mortos
libertado

Cercado de dores mansas
ouvindo ao perto o rugir
das lanças

Mortificado por uma nódoa
assaz mesquinha
insólita

Lendo poetas de todos os tempos
desalinhados
em suas linhas

Estou assim cansado
procurando-me na perdição
de ser achado

Lisboa, 28 de Abril de 2003

14/07/2010

Não me esqueço de ti ...


Não me esqueço de ti. Tanto tempo passou
e eu aqui esperando em silêncio.
Não me esqueço de todos os que me desejaram
e não pressenti.
Esquecer o que não se conheceu não é normal
normal é esquecer o que se conheceu e nos faz sofrer.

Deixei passar o tempo? Não foi esquecimento
foi falta de lembrança.
Pode ser essa a minha esperança.
Palavra maldita para os poetas.
Pasolini transformou-a numa palavra ausente
mas a esperança ainda espreita por uma frincha aberta no presente.

Vivo das vozes que me ouvem
mesmo quando duvido que me oiçam.
E deixo no vazio o apelo de palavras que agonizam.
Claro que não me serve de consolo o silêncio eterno.
Pode ser que me responda uma voz qualquer
mesmo que não seja aquela por cuja resposta desespero.

E assim passo o dia-a-dia na procura de quem me responda,
uma resposta audível, brutal ou segredada,
tanto dá mas que me faça companhia.
Para que se possa tornar ausente preciso que se apresente
e que vozes livres clamem:
ausente, ausente, ausente…

Por fim ficarei silente no sítio de onde nunca parti
mas não me esqueço de ti.

Lisboa, 8 de Setembro de 2003

26/06/2010

diálogo a sós


ainda e sempre a lembrança
do tempo dos afectos juvenis

a busca da fé e da esperança
até na hora triste de abdicar

imagem pura do lugar vazio
usurpado pelo corpo alheio

o diálogo a sós tantas vezes
maldito imposto pelo medo

solidão perversa de palavras
omitidas e silêncios severos

a lembrança do músculo teso
na esfinge do herói sonhado

mortandade de legiões crentes
tomado o destino em suas mãos

a ilusão nos rostos iluminados
cheirando em fila flores de paz

outra vez o anúncio antecipado
da tirania que a liberdade procria

e o homem na sua indiferença
cede ao medo que se anuncia

no ar ecoa a lembrança sofrida
do diálogo a sós com a morte

Lisboa, 8 de Junho de 2003

22/06/2010

AS TUAS MÃOS


Pamela Creevey

não quero deixar
as tuas mãos sem o meu
corpo

elas o conhecem
melhor que quaisquer
outras

quais mãos amantes
que o penetram fundo
e o saciam

as tuas mãos um dia virão
à minha presença
a sós

para me violarem a alma
mais além
do meu corpo

ciciando doces palavras
de desejo em voo
nocturno

carícia final
que me faz sonhar
no gesto que me possua

Lisboa, 3 de Setembro de 2003



19/06/2010

A BEM DA NAÇÃO


Fotografia de Hélder Gonçalves

Posso sair por uns instantes
daquele que me dou a conhecer
e todos reconhecem pela imagem de um homem
honesto perfilado no pedestal da probidade
reconhecidamente probo - bela palavra probo -
ou seja incapacitado por sua natureza de cometer
qualquer imprudência inqualificável
que o leve a ser apontado na esquina
da rua no largo no bairro na baixa
da sua cidade como aquele que é igual
a todos os outros
a todos os demais
menores denominadores comuns sociais
incendiários stritu sensu
ou incendiários de prazeres imorais.

São todos iguais
disse na televisão: é verdade.

Posso sair por uns instantes
desta incomoda posição de parecer normal
e de cumprir com a minha obrigação?
Deixem-me assumir uma pose de Estado
e afiambrar um discurso que me devolverá à liberdade
de ser suspeito antes de ser condenado.

Deixem-me ser eu próprio a confessar os factos
as faltas os erros os desvios e que mais...
não se macem em pôr notícias nos jornais
eu próprio me reconheço autor confesso
do descalabro da coisa pública.

Um horror a coisa pública
vista daquele ângulo da casa de banho
agachada em postura declaradamente impudica.

Gente sem preparo nem fato assertoado
antecedida e procedida por igual
de uma ineficácia confrangedora
diz a directoria do DN no editorial.

Que mais se espera do que ser removida
a coisa publica
com o devido asseio
e dentro da mais estrita legalidade.

Descansem todos os honestos coitados
quantos cuidam de não trair
sua boa reputação

podeis continuar a trabalhar,

A Bem da Nação

Lisboa, Agosto de 2003

[A propósito da morte de José Saramago uma série de poemas de 2003 na sua maioria inéditos.]