13/12/2007

Sena, Jorge

Posted by PicasaFotografia daqui

Mais longe, o que é mais longe?
Ficar no lugar, que é ficar perto?

Sena, Jorge, o homem de letras
esse mesmo que a marinha expulsou,
pai de muitos filhos, emigrante, poeta
quase eterno, amante de várias
Pátrias, morreu longe da sua,
mas nunca a esqueceu, antes quis
ser amado por ela
e ela, ingrata, o renegou.

27/7/2007
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[“Vinte Poemas de Cuba” (20). Escritos a lápis nas páginas do livro “Poesia III”, de Jorge de Sena, nos dias de uma visita a Cuba.]

12/12/2007

VITA BREVIS

Posted by PicasaAntonio Gesmundo

A vida é breve mas que a faz mais breve
não é morrer-se nem morrer quem foi
connosco nela espaço forma e tempo.
Que mais que a morte a humanidade encurta
e torna mais estreita a nossa vida.
Só brevemente e por um breve instante
seu corpo nos concede. E brevemente
é que pensar deseja que existimos.
Antes de mortos, antes de sozinhos
e apenas visitados de memórias,
já todos somos um jornal antigo
deitado fora sem sequer ser lido,
ou somos uma imagem desenhada
na borda do passeio em que se exibem
pisando-a com os pés que desenham
seus mesmos rostos que outros pés já pisam.
A vida é breve, breve, mas mais breve
quanto a quer breve a estupidez humana
fiel ao tempo ainda em que de espaço
o tempo se fazia e o pouco espaço
na terra imensa a todos não chegava.

5/1/1971

Jorge de Sena.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (27).]

06/12/2007

Posted by PicasaBarbara Morgan

Compreendo os seus cuidados.
O que lhes alentava a vida era
eu, talvez pouco, talvez muito,
um mundo no qual o filho que
lhes sobrava do quotidiano não
sonhava a vida na mesma cor
que conheciam, sobreviventes
das injustiças do mundo, sinto
o meu futuro vazio pleno deles

27/7/2007

[“Vinte Poemas de Cuba” (19). Escritos a lápis nas páginas do livro “Poesia III”, de Jorge de Sena, nos dias de uma visita a Cuba.]

05/12/2007

AS QUATRO ESTAÇÕES ERAM CINCO

Posted by PicasaTom Chambers

O verão passa e o estio se anuncia
que o outono se há-de ser e logo inverno
de que virá nascida a primavera.
Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era.

8/7/1970

Jorge de Sena.

[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (26).]

01/12/2007

A FALA (I)


(…)

Não te posso dizer: “vamos” – senão por aqui.
A infância dentro da luz dum musgo que os bichos
comem com a sua boca.
Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem.
Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,
a alegria debaixo das palavras.

(…)

“Toda Poesia” - “A Fala” in “A Luta Corporal” (1950-1953)
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

[Excertos da leitura de “Toda Poesia”, de Ferreira Gullar, (1) enquanto escrevo, a lápis, nas suas páginas uma série de poemas alguns dos quais publicarei conforme o tempo e a disposição.]

29/11/2007

MADRIGAL DE LAS ALTAS TORRES

Posted by PicasaIlustração daqui

Cresceu aqui Católica Isabel
viveu aqui a amante de Sebastião
um dos falsos melhor que o verdadeiro
morreu aqui Frei Luís de Léon
(“Como íamos dizendo …” reatou na cátedra
aonde a Inquisição cortara uns anos antes)
as torres altas não existem já
nem madrigais se cantam nestas ruas brancas.
À freira perguntei onde era que a princesa
no convento escondia o amante pressuposto
o rei que se esfumava de Encoberto.
Corou voltou-me as costas – um segredo
ainda hoje ao fim de quatro séculos.

12/12/1972

Jorge de Sena.

[In “Poesia III” – “Conheço o sal … e outros poemas - 1974” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (25). Dando um salto para alinhar este poema na imediata sequência daquele outro que o antecede e que nele foi inspirado. Este poema, talvez pela consciência do autor de seu hermetismo, mereceu uma nota que surge na edição que tomo como referência para as presentes transcrições. Ei-la: “Nesta cidade próxima de Salamanca, há um convento de freiras aonde se criou quem seria Isabel-a-Católica e aonde esteve depois recolhida Ana de Áustria, filha de D. João de Áustria, o famoso herói de Lepanto e bastardo do imperador Carlos V. Foi ela o fulcro da intriga de um dos falsos D. Sebastiões, o Pasteleiro do Madrigal, que foi executado à ordem de Filipe II. Na cidade veio a morrer o grande poeta e professor Fr. Luís de León que ao reassumir a sua cátedra de Salamanca (sala ainda conservada na Universidade) após ter saído dos cárceres da Inquisição, procedeu exactamente como vai dito no poema”.]

28/11/2007

"Como íamos dizendo ..."

Posted by PicasaJoseph Mougel

“Como íamos dizendo …”

O que espero poder dizer
um dia, mais cedo que tarde,
quando a justiça se despachar
de seus enredos imundos
nem que seja por um minuto
na cara dos assassinos impunes.

26/7/2007

[“Vinte Poemas de Cuba” (18). Escritos a lápis nas páginas do livro “Poesia III”, de Jorge de Sena, nos dias de uma visita a Cuba. O verso em epígrafe foi tomado do poema “Madrigal de Las Altas Torres” que reproduzirei de seguida conjuntamente com a nota que o autor escreveu para a edição da Poesia III que tenho vindo a citar.]