06/02/2008

ESPERANÇA

Gaylen Morgan

As curvas longínquas que antevemos na espera ou o troar do embate dos amigos que nos buscam e se multiplicam em palavras entrecortadas por silêncios. Outras vezes o ressoar longínquo de vultos perdidos que noutros tempos nos aqueceram a esperança. Os rostos distorcidos pelo esquecimento. Ausências presentes nos silêncios. Palavras ausentes nas penas. Gritos abafados pela dor. Delírios de amor imaginado. Tudo é possível enquanto a vida ferve e um rosto radioso nos olha e imaginamos que nos entende.

Lisboa, 31 de Janeiro de 2008

31/01/2008

MEU POVO, MEU POEMA

Carlos Tarrats

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta


Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “Dentro da Noite Veloz (1962/1975)”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

23/01/2008

DEZEMBRO

Rita Bernstein

Fora da casa
o dia mantém solidário
seu corpo de chama e de verdura

Dia terrestre,
falam num mesmo nível de fogo
minha boca e a tua

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Vil Metal (1954-1960)”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

15/01/2008

TEMPO


Uma estridência que se tempera
Com a experiência do saber feito
Do tempo do espaço e da espera
Que se abre no caminho estreito.

Saber das palavras o certo efeito
Não sei e o tempo me desespera.

Aperta-se-me a garganta e deito
A palavra ao vento como na leira
Os meus ancestrais de outra era
Separavam a palha da semente.

Um dia serei grão, terra ou nada
Não sei e o tempo me desespera.

13/1/2008

13/01/2008

NOÇÕES DE LINGUÍSTICA

Posted by PicasaJulie Blackmon

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguês daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na merda quotidiana de outras.

Caliban, 3/4, 1972

Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (31). Este poema foi postado no absorto em 16/11/2004 a partir de uma edição que o data de 1972. Na edição que li em Cuba o poema é datado de Outubro de 70 e apresenta duas diferenças face a este que reproduzo daquela primeira postagem: gaguez em lugar de gaguês, caca em lugar de merda. Interessante!]

11/01/2008

OSWALD MORTO

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional


NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Vil Metal (1954-1960)”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

07/01/2008

OCORRÊNCIA

Teresa Dias Coelho

Aí o homem sério entrou e disse: bom dia
Aí o outro homem sério respondeu: bom dia
Aí a mulher séria respondeu: bom dia
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores, as paredes
o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros, o mata-borrão, os
sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços.

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Vil Metal (1954-1960)” José Olympio – Editora – Rio de Janeiro