17/03/2008

O ROSTO (I)


“detrás, detrás do amor,
ergue-se para a morte, o rosto.”

A FALA – Ferreira Gullar


O rosto adivinhado conforme os ângulos
Meu ideal de beleza, meu olhar inventado
O rosto que pressinto no vazio desconhecido
Mostrado como se fora visto e reconhecido
O rosto imaculado com as marcas do tempo
Impoluto misterioso sorridente e desabrido.

Ergue-se para a morte, o rosto detrás do amor

25/11/2007

[25 Poemas. Selecção de poemas escritos, a lápis, nas páginas do livro “Toda a Poesia”, de Ferreira Gullar, 15ª edição, José Olympio, Editora.]

16/03/2008

O QUE DORME EM MIM


O que dorme em mim não é o esquecimento
É a lembrança do céu azul e da terra quente
O que me desperta os sentidos não é o lamento
Dos anos de letargia que trago de adulto dentro
É o sonho incumprido de fazer da minha vida
Uma dádiva que por outros pudesse ser vivida

É a vida, a própria vida, que me leva de vencida!

25/11/2007

[25 Poemas. Selecção de poemas escritos, a lápis, nas páginas do livro “Toda a Poesia”, de Ferreira Gullar, 15ª edição, José Olympio, Editora.]

13/03/2008

DEIXA-TE ESTAR AÍ

Chris Dunker

Para a Raquel

Deixa-te estar aí. Não saias do teu lugar
E não fiques triste se te perderes
Deixa-te estar aí. Um tempo mais
Que não nos perderemos de ti

Deixa-te estar aí. Mesmo sem nos vermos
Ouviremos ao longe a tua voz
Deixa-te estar aí. Perdida ou achada
Com a tua fé sem ti seremos nós

Deixa-te estar aí. Nunca saímos
Do coração daqueles que gostam de nós
Deixa-te estar aí. Só mais um tempo
E acredita na verdade sempre

Deixa-te estar aí. Não saias do teu lugar
E se acaso saíres não te percas
Deixa-te estar aí. Se te perderes
Fica certa que te vamos encontrar.

12 de Março de 2008

10/03/2008

PRIMEIROS POEMAS

A Helena um dia, antes do Natal de 2007, enviou-me uma prenda muito especial. Fiquei sem fôlego de como lhe haveria de retribuir. Foi assim que nasceu a ideia de criar um livrinho com os primeiros poemas que escrevi com intencionalidade poética. Alguns deles constavam de um quase diário que mantive, durante bastante tempo, actualizado no início dos anos 80. A maior parte tinha-os perdido de vista até uns tempos atrás. Depois fui descobrindo manuscritos. Papéis soltos. Eliminei alguns, talvez de menos. No verão do ano passado publiquei-os com a etiqueta Primeiros Poemas no Caderno de Poesia.

Este último Natal a Isabel Espinheira criou um livro que é mais do que o suporte em papel para esses Primeiros Poemas, tardios (pois sou tardio em tudo), tendo-lhes acrescentado aguarelas que para ele foram criadas e um grafismo, ao que me dizem, feliz. Assim nasceu uma micro edição em homenagem a minha mulher Guida pois, além do mais, a maioria deles lhe foram dedicados nos primeiros meses do nosso encontro feliz.

Não pensava dar-lhe publicidade. Mas a Helena, na Linha de Cabotagem, deu-se ao trabalho, por gentileza e amizade, de publicar a imagem da capa e dois poemas, assim como a Maria do Rosário Fardilha, no Divas & Contrabaixos, ainda antes, com palavras que não esquecem, já lhe tinha feito referência.
O que nos vale, nos dias mais amargos, é a amizade e a ternura dos que nos fazem sentir próximos mesmo quando estão distantes.

08/03/2008

NA PRAÇA

Faro – A caminho da Sé

Na praça a penumbra
do fim da tarde
cheira à flor da laranjeira

Na praça a temperatura
amena navega
por entre paredes brancas

Na praça é tal o silêncio
e a placidez da gente
que nela oiço a voz do tempo


Faro, 1 de Março de 2008

05/03/2008

RECORDAÇÃO

Eu bem sei
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.
Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.
Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...

Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos.

Afonso Duarte

03/03/2008

BORRAS DE IMPÉRIO IV

Nubar Alexanian

Portugal é feito dos que partem
e dos que ficam. Mas estes
numa inveja danada por aqueles terem
sido capazes de partir, imaginam-lhes a vida
a série de triunfos sonhados por eles mesmos
nas horas de descrerem da mesquinhez em que triunfam
todos os dias. E raivosamente
escondem a frustração nos clamores
da injustiça por os outros lá não estarem
(como eles estão), do mesmo passo
que se ocupam afanosamente em suprimi-los
(não vão eles ser tão tolos –
- a ponto de voltarem).

8/6/1971

Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (35).