02/06/2008

JORGE DE SENA - pelo 30º aniversário da sua morte (III)


“NUNCA NINGUÉM AO CERTO NOS CONHECE”

Nunca ninguém ao certo nos conhece.
Quem bem repara menos vê ou vê
mais e melhor o quanto reparou.
Por isso, anos passados, recordando,
folheando as folhas para tal guardadas,
olhando uns vãos desenhos em que há sempre
sebentas, livros, um amor sabido,
e lendo versos, em que há sempre livros,
o mesmo amor, sebentas, e talvez
alguma graça já sem graça alguma,
tão docemente o recordar se aviva,
que não distingue … outros recorda … esquece.

E como reparar-se em quem não pára?
Em quem do Porto a Coimbra se prepara
para a viagem de Coimbra ao Porto?
Em quem trabalha e estuda em correria
sem ter tempo a perder na Academia?

E pois que da amizade nestes livros
só ficará quanta morrer na vida,
folheai, lembrai, guardai nos papéis velhos,
que o resto, o mais, o que afinal é tudo,
aqui não está – ou, estando, não é vosso.

6/2/48

Jorge de Sena

In TEMPO DE PEDRA FILOSOFAL (1945-1950)
40 ANOS DE SERVIDÃO (Círculo de Poesia – Moraes Editores)

JORGE DE SENA - pelo 30º aniversário da sua morte (II)

.
VER

Tu julgas que procuro, e não procuro.
Tu julgas que eu aceito, e não aceito.
Nem de aceitar nem procurar é feita a minha vida.
Sabes? Será que alguma vida
é feita do que julgas?
No coração mental das tuas flor´s perdidas
há um pequeno núcleo enegrecido,
que enegreceu à falta de o olhares.
Não julgues, olha-o.
Olha-o por amor da minha vida.
Verás que se desdobra imaculado.
Estarei pensando fugidiamente em como
será que o olhas. Nada mais farei.

1951

Jorge de Sena

Post-Scriptum [1960] - In Poesia I (Moraes editores 2ª Edição – 1977)

31/05/2008

JORGE DE SENA - pelo 30º aniversário da sua morte (I)


Nos inícios de 1980 decidi ler a sua obra, particularmente a poesia, que antes conhecera de referências esparsas e leituras pontuais. Essa experiência de leitor da obra de Sena, que ainda prossegue, foi muito importante na conformação do meu gosto estético, na forma de abordar a aventura da escrita, na abjecção da injustiça e na revolta contra o Portugal que Sena muito bem descreveu no seu poema “No País dos Sacanas” (10/10/73).

Foi nos inícios do ano de 1980, influenciado pela leitura intensiva da poesia de Jorge de Sena, que escrevi os meus primeiros poemas. No Natal de 1980 publiquei mesmo uma edição artesanal, policopiada, com alguns desses poemas acompanhados por outros tantos de Jorge de Sena. São esses que publicarei, em sua homenagem, por altura do 30º aniversário da sua morte, não esquecendo sua mulher Mécia.

Rondel

De amor quem amo nunca sei ao certo
e a quem me tem amor sei que esse amor
eu amo ardentemente e nada mais.
Dizer de amor, sei bem de quem não digo;
não sei, porém, já se o disser, de quem.
Tudo se perde no que quero. Às vezes,
quando possuo, não possuir quisera.
E teu amor me quer. Como saber
se quero ou se não quero que se perca?
Dizer de amor, assim, pensando em tudo?
Ser esse amor que sou em teu amor?
Como é possível nascer outro, enquanto
o mesmo me conheço e a quem nasço?
Qual um ou outro? O que se esquece? Aquele
que se recorda? O que não pensa? O que
finge lembrar-se? Mas lembrar o quê?
Eu amo ardentemente e nada mais.

Jorge de Sena

Pedra Filosofal [1950] - III Amor
In Poesia I (Moraes editores 2ª Edição – 1977)

29/05/2008

O PROBLEMA DO SISTEMA


O problema do sistema não está no sistema
está no homem que o criou e dele se alimenta
à sua imagem prisioneiro do egoísmo zelando
para que o outro não suba mais alto nem se
descubra mais forte a ponto de ser capaz de
se fazer por si próprio um ser livre audaz tão
diferente que o sistema pobre de alimento
não mais se aguente tão auto-suficiente e se
desmorone no chão sem que o próprio criador
dê por isso e nem sequer lhe faça o funeral.

23/12/2007

[25 Poemas. Selecção de poemas escritos, a lápis, nas páginas do livro “Toda a Poesia”, de Ferreira Gullar, 15ª edição, José Olympio, Editora.]

27/05/2008

A página do poema Maio 1964

Fotografia de Família

Quando escrevi os primeiros poemas com jeito de escrever tinha 33 anos e uma dor no corpo tal como Gullar quando em Maio de 1964 escreveu: “Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo a vida, que é cheia de crianças, de flores e mulheres, a vida, esse direito de estar no mundo, ter dois pés e mãos, uma cara e a fome de tudo, a esperança.” Hoje tenho muitos mais anos e escrevo na página do livro onde está impresso o poema Maio 1964 e digo que nada me demove de estar aqui e amar a vida mesmo quando ela se ri de mim.

23/12/2007

[25 Poemas. Selecção de poemas escritos, a lápis, nas páginas do livro “Toda a Poesia”, de Ferreira Gullar, 15ª edição, José Olympio, Editora.]

25/05/2008

TELEFONEMA DE NATAL


“Sempre gostei muito de ti”


A frase cortou-me o coração

Dita de súbito do outro lado

Tantos afagos me deixaram

Dormir descansado de leve

Ou fundo que ainda os sinto

Quando viajo ao longo de mim

23/12/2007

[25 Poemas. Selecção de poemas escritos, a lápis, nas páginas do livro “Toda a Poesia”, de Ferreira Gullar, 15ª edição, José Olympio, Editora.]