21/01/2009

A AMIZADE SUAVE E DISCRETA DAS MULHERES

“31 de Março.
Tenho a sensação de emergir pouco a pouco.
A amizade suave e discreta das mulheres.”

“31 mars.
Il me semble que j´émerge peu à peu.
L´amitié douce et retenue des femmes. »*


Sei do teu prazer em desejar a amizade

suave, à distância e dela te bastares sem

dizer nada, discreta a arte de ser mulher.


* Citação de 1936, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 1 (Maio de 1935 – Setembro de 1937) - página 24, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier I (Mai 1935 – septembre 1937) – página 806, Oeuvres complètes – II.

17/01/2009

A MINHA ALEGRIA NÃO TEM FIM

“Março.
A minha alegria não tem fim.”

“Mars.
Ma joie n´a pas de fin.”*



A minha alegria não tem fim

na calma terna que se espraia


margem de ternura solidária

na cidade iluminada a alecrim


a minha alegria não tem fim

na vereda deserta e silenciada


seduzindo a ruína despojada

dos teus lábios rosa em mim


a minha alegria não tem fim

cidade de teu corpo povoada.


* Citação de 1936, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 1 (Maio de 1935 – Setembro de 1937) - página 22, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier I (Mai 1935 – septembre 1937) – página 804, Oeuvres complètes – II.

Publicação dos poemas insertos no livro (micro edição): “Há um momento em que a juventude se perde. É o momento em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas esse momento é duro.” Ilustrados com desenhos de meu filho Manuel pelos seus dez anos. Acrescenta-se a epígrafe na língua original e uma nota com a indicação das fontes bibliográficas.

13/01/2009

AO CAIR DO DIA

Ao cair do dia a luz adormece
e se torna clara,

O dia, em silêncio, anoitece
na madrugada,

É a esperança
de um novo dia que acontece,

27/11/2008

31/12/2008

FIM DE ANO


A planura da noite debruando sombras
Brilho da luz refulgente acesa pelo frio
De inverno sorvendo o vapor das bocas
Entreabertas esperanças semi-desertas
O tacto preso, a mão incerta na crença
Do caminho que ao certo desconhecem
Brandindo os silêncios como uma arma
E nas sombras da noite o tempo passa

31/12/2008

28/12/2008

PARA QUÊ?

Para quê tanta preocupação

Com a vida dos mortos nela?

Os mesmos rostos e sorrisos

O tempo, vida serena e bela.

Para quê tanta preocupação

Com a vida dos jovens nela?

27/12/2008

21/12/2008

“Há um momento em que a juventude se perde. É o momento em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas esse momento é duro.”

Esta é a capa do livro que adoptou o título do último dos 18 poemas de que é portador. Esse poema está aqui. Para que se entenda melhor a génese do livro, e o contexto da sua publicação, transcrevo a Nota Introdutória que, sinceramente, tenho dúvidas se deveria ter sido nele incluída.

BREVE NOTA INTRODUTÓRIA

Ao meu filho Manuel Maria pelos seus 18 anos

Este livro surge fora do mercado editorial porque, na verdade, em Portugal, não há um verdadeiro mercado editorial de poesia. Mais vale, neste estranho vazio, em que o favor devora a apreciação do mérito, sem querer atribuir-me mérito algum, editar para os amigos de todas as horas, cúmplices de todas as lides, famílias de todas as estirpes, do que perder tempo, verbo e cabedal, em aventuras editoriais que, de ciência certa, é sabido estarem votadas ao fracasso.

Esta iniciativa editorial, de raiz artesanal, pretende situar-se, assumidamente, no terreno dos afectos e da reflexão, à margem do mercado, associando a empresa da escrita ao desenho gráfico, buscando uma forma susceptível de alcandorar o livro à categoria de objecto capaz de despertar o prazer da leitura forjando um pequeníssimo grão de liberdade de que cada um se apropriará como lhe aprouver. É assim que entendo o papel da comunicação pela arte.

Este livro é um exercício tardio inspirado na leitura de juventude, que me tem acompanhado a vida toda, dos “Cadernos” de Albert Camus, nos quais o autor de “O Estrangeiro”, revela a faceta fragmentária da sua escrita constituindo-se como um verdadeiro blogue “avant la lettre”.

A única explicação possível para o meu interesse, precoce, por Albert Camus reside no facto de, eu próprio, nunca ter frequentado os meios intelectuais tradicionais fazendo um caminho solitário na aprendizagem da importância da arte, situando-me sempre mais próximo da rebeldia, face às escolas de pensamento dominantes, do que da assumpção dos princípios de qualquer uma delas.

Parti, pelos meus 20 anos, dos “Cadernos” para, ao longo das últimas quatro décadas, me embrenhar na leitura de boa parte da obra de Camus, tarefa assumida como leitor interessado, quiçá apaixonado, e não mais do que isso. Foi a partir dessa condição de leitor que me aventurei nesta experiência poética.

Neste livro reúnem-se dezoito poemas, escritos em 2003, que, desde sempre, intitulei de “Glosas Imperfeitas”, mas que, finalmente, para evitar mal entendidos, rebaptizei com o título do último poema: “Há um momento em que a juventude se perde. É o momento em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas esse momento é duro.”

Quase todos os poemas foram escritos a partir de frases sublinhadas, a traço grosso, aquando da primeira leitura dos “Cadernos”, e são ilustrados, nesta micro edição, por desenhos gráficos, realizados em computador, pelo meu filho Manuel Maria ainda enquanto criança.

Nesta empresa íntima acompanha-me a música, por vezes agreste, da poesia de Jorge de Sena sobreposta à irradiante luminosidade das paisagens do mediterrâneo que povoam o imaginário de Albert Camus e que tanto influenciaram a sua escrita.

A cumplicidade generosa, e o talento da Isabel Espinheira, cozem o corpo ao espírito desta edição que é dirigida aos interstícios onde se encontram os únicos leitores que me interessa surpreender: os que acariciam um livro por prazer e dispõem da liberdade de o ler sem ser por dever,

Lisboa, Outubro de 2008

17/12/2008

UM DIA

Para a Teresa Patrício

Um dia quando nos faltar a lembrança
Do que fomos inteiros e crentes um dia
Quando a esperança for maior que nós
De verdade e nos fizer esquecer um dia
De vida que se nos escapou sem perdão
Qual infidelidade ao nosso credo um dia
Seja ele qual for na sua beleza rompante
Da luz que alumia quais mãos que um dia
Se estenderam e cantaram em voz calma
A alegria de agradecer a amizade, um dia

Lisboa, 17 de Dezembro de 2008