13/02/2009

O vento, uma das raras coisas próprias do mundo.

“O vento, uma das raras coisas próprias do mundo.”

“Le vent, une des rares choses propres du monde.”*



o vento,

empurra os odores e espalha as sementes

o vento,

assobia canções de embalar entre dentes

o vento,

canta os amores coloridos e suspira fundo

o vento,

dança nas frestas e sopra as ondas do mar

o vento,

é um mensageiro alado que nos faz sonhar

o vento,

é uma das raras coisas próprias do mundo.


* Citação de 1941, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 3 (Abril de 1939 – Fevereiro 1942) - página 169, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier III (Avril 1939 – février 1942) – página 923, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)

11/02/2009

As primeiras amendoeiras em flor na estrada, frente ao mar.

“As primeiras amendoeiras em flor na estrada, frente ao mar. Uma noite bastou para que eles ficassem cobertos daquela neve frágil que com dificuldade se imagina que possa resistir ao frio e a essa chuva que encharca todas as pétalas.”

« Les premiers amandiers en fleur sur la route, devant la mer. Une nuit a suffi pour qu´ils se couvrent de cette neige fragile dont on imagine mal qu´elle puisse résister au froid et à cette pluie qui trempe tous les pétales. »*


A mesma terra e outro mar

carregando pesadas nuvens

húmidas de salmoira densa,

o céu do meu país sonhado


a mesma gente outro lugar

e as primeiras amendoeiras

eu as vi a florescer em flor,

na estrada de frente ao mar


lembravam-me um lençol

embrulhando o meu corpo

suado nas tardes do tempo

passado quando ao relento


adormecia ao canto suave

da voz que bradava longe

para ser ouvida na estrada,

frente ao mar azul florido.



* Citação de 1940, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 3 (Abril de 1939 – Fevereiro 1942) - página 145, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier III (Avril 1939 – février 1942) – página 903, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)

07/02/2009

Aquela manhã cheia de sol: as ruas quentes e cheias de mulheres.

“Aquela manhã cheia de sol: as ruas quentes e cheias de mulheres. Vendem-se flores a todas as esquinas das ruas. E esses rostos de raparigas que sorriem.”

“Ce matin plein de soleil: les rues chaudes et pleines de femmes. On vend des fleurs à tous les coins de rue. Et ces visages de jeunes filles qui sourient. »*



Aquela manhã cheia de sol enchendo

as ruas quentes e cheias de mulheres

nas praças


esses rostos de raparigas que sorriem

me enchem o corpo de uma estranha

agonia


vendem-se flores a todas as esquinas

e das ruas fumegam fogos de magia

multicolores


aquela manhã cheia de sol iluminada

me deu a conhecer que me conhecias

eu sabia.


* Citação de 1939, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 2 (Setembro de 1937 – Abril de 1939) - página 107, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier II (Septembre 1937 – avril 1939) – página 875, Oeuvres complètes – II.

05/02/2009

O coração árido do criador.

“O coração árido do criador.”

“Le cœur sec du créateur.”*


O arrebatado amor que se insinua

na idade madura

é desejo feito dor, deixa saudade

e perdura

no velho coração árido do criador.


* Citação de 1938, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 2 (Setembro de 1937 – Abril de 1939) - página 94, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier II (Septembre 1937 – avril 1939) – página 863, Oeuvres complètes – II.

29/01/2009

O espaço está cheio de aves cruéis e perigosas

“O espaço está cheio de aves cruéis e perigosas.”

“L´air est peuplé d´oiseaux cruels et redoutables. »*


As aves volteiam em torno de nossas cabeças:
o espaço está cheio de aves cruéis e perigosas.


* Citação de 1938, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 2 (Setembro de 1937 – Abril de 1939) - página 87, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier II (Septembre 1937 – avril 1939) – página 858, Oeuvres complètes – II.

25/01/2009

A tentação comum de todas as inteligências: o cinismo.

“A tentação comum de todas as inteligências: o cinismo.”

“La tentation commune à toutes les intelligences: le cynisme.” *



Do outro lado de um coração que pensa

insidiosa

a tirania elogia o caos à beira do abismo

e conclama

a tentação comum de todas as inteligências:

o cinismo.


* Citação de 1938, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 2 (Setembro de 1937 – Abril de 1939) - página 85, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier II (Septembre 1937 – avril 1939) – página 855, Oeuvres complètes – II.

23/01/2009

Primeiros dias de calor. Sufocante.

“Abril.
Primeiros dias de calor. Sufocante. Todos os animais estão deitados. Quando o dia começa a declinar, a natureza estranha da atmosfera por cima da cidade. Os ruídos que nela se elevam e se perdem como balões. Imobilidade das árvores e dos homens. Pelas esplanadas, mouros de conversa à espera que venha a noite. Café torrado, cujo aroma também se eleva. Hora suave e desesperada. Nada para abraçar. Nada onde ajoelhar, louco de reconhecimento." [Nesta página da edição portuguesa dos "Livros do Brasil" escrevi, à mão, em frente a Abril: “3-1968-Faro-Cais”, datando, com precisão, a primeira leitura. O ambiente da Argélia natal de Camus tem algo a ver com o ambiente de Faro, a minha cidade natal. Devia ser o período das Férias de Páscoa. Curiosamente nas vésperas do “Maio de 68”.]


“Avril.
Premières journées de chaleur. Étouffant. Toutes les bêtes sont sur le flanc. Quand la journée décline, la qualité étrange de l´air au-dessus de la ville. Les bruits qui montent et s´y perdent comme des ballons. Immobilité des arbres et des hommes. Sur les terrasses, mauresques qui divisent en attendant le soir. Café qu´on grilles et dont l´odeur monte aussi. Heure tendre et désespérée. Rien à embrasser. Rien où se jeter à genoux, éperdu de reconnaissance.” *

* Citação de 1936, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 1 (Maio de 1935 – Setembro de 1937) - página 25, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier I (Mai 1935 – septembre 1937) – página 806, Oeuvres complètes – II.

Na primeira lufada de ar quente me surgiste

e senti o calor dos primeiros dias de verão,

sufocante fulgor das arremetidas da tua voz

insinuante aberta até ao queixo do enigma

de saber que te quero possuir mas não sei.


Ajuda-me a possuir-te mesmo que eu não

queira e te deites mal amada pois eu quero

e desespero perdido por querer que saibas

do meu desejo sincero e louco em possuir-te

nos primeiros dias de calor. Sufocante.