28/03/2009

Vivemos num mundo em que é preciso escolher sermos vítimas ou carrascos e nada mais.

“Antinomias políticas. Vivemos num mundo em que é preciso escolher sermos vítimas ou carrascos – e nada mais. Esta escolha não é fácil. Pareceu-me sempre que na realidade não há carrascos, há apenas vítimas. No fim de contas, bem entendido. Mas é uma verdade que está pouco espalhada.
Gosto imenso da liberdade. E para todo o intelectual, a liberdade acaba por confundir-se com a liberdade de expressão. Mas compreendo perfeitamente que esta preocupação não está em primeiro lugar para uma grande quantidade de europeus, porque só a justiça lhes pode dar o mínimo material de que precisamos, e que, com ou sem razão, sacrificariam de bom grado a liberdade a essa justiça elementar.
Sei estas coisas há muito tempo. Se me parecia necessário defender a conciliação entre a justiça e a liberdade, era porque aí residia em meu entender a última esperança do Ocidente. Mas essa conciliação apenas pode efectivar-se num certo clima que hoje é praticamente utópico. Será preciso sacrificar um ou outro destes valores? Que devemos pensar, neste caso?” (Texto escrito entre Setembro e Outubro de 1945.)

“Antinomies politiques. Nous sommes dans un monde où il faut choisir d´être victime ou bourreau – et rien d´autre. Ce choix n´est pas facile. Il m´á toujours semblé qu´en fait il n´y avait pas de bourreau, mais seulement des victimes. Au bout du compte, bien entendu. Mais c´est une vérité qui n´est pas répandue.
J´ai un goût très vif pour la liberté. Et pout tout intellectuel, la liberté finit pour se confondre avec la liberté d´expression. Mais je me rend parfaitement compte que ce souci n´est pas le premier d´une très grande quantité d`Européens parce que seule la justice peut leur donner le minimum matériel dont ils ont besoin et qu´à tort ou à raison ils sacrifieraient volontiers la liberté à cette justice élémentaire.
Je sais cela depuis longtemps. S´il me paraissait nécessaire de défendre la conciliation de la justice et de la liberté, c´est qu´à mon avis là demeurait le dernier espoir de l`Occident. Mais cette conciliation ne peut ce faire que dans un certain climat qui aujourd´hui n´est loin de me paraître utopique. Il faudra sacrifier l´une ou l´outre de ces valeurs ? Que penser, dans ce cas ? »*


Vivemos num mundo que não escolhemos
foi-nos dado viver nele e buscar um destino
ser colhidos como uma flor nascida acaso
na beira da estrada ou no canteiro florido
do lugar que não escolhemos para nascer

vivemos num mundo sombrio onde a luz
alumia um só caminho que não sabemos
percorrer lugar perdido em que é preciso
escolher toda a vida o incrédulo absurdo:
sermos vítimas ou carrascos e nada mais.

* Citação de 1945, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 5 (Setembro 1945 – Abril de 1948) - página 131, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier V (Septembre1945- avril 1948) – página 1026, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)

24/03/2009

VEJO A SILHUETA AO LONGE

Tom Chambers

Vejo a silhueta ao longe com mar de permeio
refulgência do olhar que me olha sem me ver.
Deixo-me levar na corrente lisa que me banha
o corpo suspenso da palavra sei lá o que mais.
Talvez seja o desejo puro de descobrir mundo
além do mar que nos separa nosso mar quente
unindo a pele diferente que nos cobre o corpo.
Sei lá! Talvez o olhar me deixe adivinhar ser
desconhecido o prazer mais do que prometido
como se me debruçasse de uma janela aberta
sobre o mistério de um olhar que me desperta
o desejo puro. Fruído como um fruto maduro.

Lisboa, 24 de Março de 2009

19/03/2009

A imortalidade é uma ideia sem futuro.

“Privado daquilo que é pecado, o homem não poderia viver; mas viveria perfeitamente privado do que é são.” – A imortalidade é uma ideia sem futuro.

“Privé de ce qui est péché, l´homme ne saurait vivre; il ne vivrait que trop bien privé de ce qui est saint. » - L´immortalité est une idée sans avenir.*


Viver a vida inteira. O muito. O pouco.

O nada. O que se queira.


Feliz é viver a vida inteira

sem memória.


Infeliz é morrer com a obra

no cabouco.


A imortalidade é uma ideia sem futuro.


* Citação de 1941, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 3 (Abril de 1939 – Fevereiro de 1942) - página 168, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier III (avril 1939 – février 1942) – página 922, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)

15/03/2009

Um luxo de ricos A solidão

“23 de Setembro [1937].
Solidão, luxo dos ricos.”

23 septembre.
Solitude, luxe des riches.”*


Estar só
Ausência inteira
Solidária
A sós consigo própria
Só a nossa sombra
Nos olha

Estar só
Nada mais além
De nós
Próprios despidos
De tudo o resto
E de outros

Estar só
Absolutamente nós
Vigiados
Pela nossa voz
Ressoando
No pensamento

Estar só
Caminhar além
Do fim
Aquém da memória
Dos outros
Que vivem em nós

Estar só
O sobressalto
Do vazio
Nunca sonhado
Depois de tudo
Ter perdido

Estar só
Não é anunciares
A minha
Partida
É não te anunciares
Nunca

Estar só
É estar perdido
E não saber
Que me perdi
Deixar a tua mão
Por apertar

Estar só
Quero estar
Só uma única vez
A da palavra
Final
E nunca mais

Estar só
Sem ninguém
É partilhar o silêncio
Raro
Um luxo de ricos
A solidão


* Citação de 1937, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 2 (Setembro de 1937 – Abril 1939) - página 61, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (Mai 1935 – Décembre 1948) ” – “Cahier II (Septembre 1937 – avril 1939) – página 836, Oeuvres complètes – II.

06/03/2009

O homem que eu seria se não houvesse sido a criança que fui

“O homem que eu seria se não houvesse sido
a criança que fui !”

“L´homme que je serai si je n´avait pas été l´enfant que je fus ! »*


O homem que eu seria aberto generoso
Olhando os outros homens de frente
Se não tivesse nascido no tempo dos silêncios
Que deram consentimento à tirania

O homem que eu seria ousado em cada gesto
E buscando o sucesso em cada passo
Se não me tivesse assomado o medo
Que tolhe inteira toda a verdade

O homem que eu seria esclarecido
A cabeça povoada de ideias de mudança
Não fosse a memória da mulher ao postigo
Afastando a cortina de chita às cores

O homem que eu seria se os homens
Fossem uma criação divina e não o fruto natural
De outros homens seres originais nascidos
Do prazer carnal ou social obrigação

O homem que eu seria se não me tivessem
Em criança forçado a fazer os deveres
Cortado o cabelo e não me tivesse crescido
O corpo uma medida acima do normal para a época

O homem que eu seria se não fosse fruto tardio
De um amor que não agradeci o suficiente
E me faz pensar no homem que eu seria
Se não houvesse sido a criança que fui


* Citação de 1945, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 4 (Janeiro de 1942 – Setembro 1945) - página 126, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier IV (janvier 1942 – septembre1945) – página 1025, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)

27/02/2009

Bob: nos prados de Verão da Normandia. O seu capacete coberto de goiveiros e ervas bravas.

“Bob ao ataque nos prados de Verão. O seu capacete coberto de goiveiros e de ervas bravas.”

“Bob à l´attaque dans les prairies d´été. Son casque couvert de ravenelles et d´herbes folles. »


Bob: milhões de mortos jazem nos prados
de verão da Normandia. Nasci no tempo
de enterrar os mortos. Cresci com o som
do choro longínquo dos seus órfãos. Aqui
à ponta ocidental não chegou a liberdade
de chorar os capacete cheios de lágrimas
suspensos nas mãos das viúvas solitárias.

Bob: milhões de mortos em nome da paz
não foram suficientes. O teu sangue regou
o chão da Europa e no verão da Normandia
nasceu a esperança de um novo dia. Bob:
ainda bem que vieste. A barbárie sucumbiu.
O teu capacete coberto de goiveiros e ervas
bravas foi um alvo fácil como fácil é morrer.


* Citação de 1944, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 4 (Janeiro de 1942 – Setembro 1945) - página 121, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier IV (janvier 1942 – septembre1945) – página 1021, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original; aqui: folles/bravas (?). Neste caso a citação que serviu de epígrafe não corresponde aquela que, neste momento, leio no original. Não encontro uma explicação imediata para a discrepância.)
*
Como seria de supor não havia erro na citação. Logo a seguir ao fragmento que tomei quando preparava o poste surge o fragmento que, originalmente, tomei para epígrafe do poema e do qual, incrivelmente, apesar de estar mesmo à mão, não me dei conta. Integra um longo, e muito interessante, excerto, inteiramente dedicado à guerra, intitulado:

“Création corrigée.”

(…)

“Bob dans les prairies d´été en Normandie. Son casque couvert d´herbes folles et de ravenelles. »

21/02/2009

Não posso viver fora da beleza.

“Não posso viver fora da beleza. É o que me torna fraco diante de certos seres.”

“Je ne peux pas vivre hors de la beauté. C´est ce que me rend faible devant certains êtres. " *



A caminho do futuro incerto
se joga a minha vida
e os gestos dela
tudo se joga menos a pura
beleza daquela face
e o meu olhar nela

não seria capaz de viver
fora da beleza
e um olhar por vezes basta
novidade do breve desejo
arrebatado e triste
no aceno de despedida

chegar partir abrir a mão
apertar os lábios
e lamber as feridas
sorver a lágrima
que cai pelo rosto desabrida
e não perder o trilho

amar o dia como a um filho
que se viu nascer
e admirar a beleza do seu rosto
olhar o anoitecer
e a luz que ilumina o caminho
me faz crer

não posso viver fora da beleza
perdida a juventude
o meu corpo oblíquo
rememora resiste e reverdece
qual movimento do desejo
que se não perde e cresce.

* Citação de 1943, in versão portuguesa dos Cadernos de Albert Camus – Caderno Nº 4 (Janeiro de 1942 – Setembro 1945) - página 88, edição Livros do Brasil; in versão original francesa “Carnets (1935 – 1948) – “Cahier IV (janvier 1942 – septembre1945) – página 994, Oeuvres complètes – II. (Mesmo quando surgem duvidas tenho mantido sempre a tradução original.)