13/04/2009

AO LONGE

ROBERT BONK

Ao longe vejo as flores nos canteiros
em casa de meus pais longos dias en
tre cheiros divinais sem medida nem
outro sentido senão as transparências

Ao longe o beijo na face de que ficou
o traço que pressinto e não vejo embo
ra todas as bocas sejam sagradas quan
do por amor nos beijam e nos deixam

Ao longe o mar povoado de infinito ar
fando por chegar à costa calmo manso
molhando os pés descalços cuidado vê
lá se te molhas! E corrias a agarrar-me

Ao longe navegam as gentes para além
da memória que vive comigo, esqueço
o lugar exacto, o cheiro a flores bravas
plantadas num canto do mundo antigo

7/4/2009

09/04/2009

LINHA DE CABOTAGEM III

Quando os verdes se impõem
há na cidade um silêncio
de escalas

cada planta inviolável
a melodia onde assento o teu rosto.

08/04/2009

O tempo do cansaço profundo


O tempo do cansaço profundo do corpo lasso suspenso
De um futuro com notícias frescas trazidas pelo vento
Não sei se o tempo atrás passado com suas conveniências
Silêncios gestos palavras uma história de famílias antigas
Conta para desenhar o futuro ao menos nos genes dos filhos

O tempo passa lentamente por entre as desilusões da vida
E no cimo da energia que nos anima o olhar vemos o passado
Com todas as amantes lugares desejos momentos e lascívias
Morto ou vivo vemos o tempo e nele a nossa vida dentro
Em círculos que nos apertam a alma e nos abafam o lamento

16/7/2008

07/04/2009

PEQUENA ANTOLOGIA DE POETAS NEOLATINOS


Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva grácil, na escuridão tranqüila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora....

Camilo Pessanha

05/04/2009

a caminho do futuro incerto

Albert Lemoine

A caminho do futuro incerto
se joga a minha vida
e os gestos dela,
tudo se joga menos a pura
beleza daquela face
e o meu olhar nela.

Não seria capaz de viver
fora da beleza
e um olhar por vezes basta
a novidade do breve desejo
arrebatado ou o triste
aceno de despedida.

Chegar e partir abrir a mão,
apertar os lábios,
lamber as feridas,
sorver as lágrimas que caem
pelo rosto desabridas,
e não perder o trilho.

Amar o dia como a um filho
que se viu nascer,
admirar a beleza de um rosto
na aurora do anoitecer,
beleza que ilumina o caminho
e me faz crer.

Não posso viver sem a beleza
aqui onde sinto o corpo
oblíquo em delírio
ou no lugar do desejo já morto
os meus sentidos
se perdem ao perdê-la.

Lisboa, 31 de Agosto de 2003

[Variante, datada, e com outro título, do poema “Não posso viver fora da beleza”]

O LIVRO DOS SERES IMAGINÁRIOS

A PARTIR DE HOJE APRESENTO SITES E BLOGUES DE POESIA POR ESSE MUNDO INFINITO.

04/04/2009

90 ANOS

A aragem não enganava o lugar dela
nem o seu sopro poupava os corpos
correndo suave um hálito escaldante

e até a sombra das árvores mudaram
o tom da frescura conforme o género
da folhagem e a formatura das copas,

Caminhamos desde o fim dos tempos
pelos mesmos caminhos de pé posto
em que se levantam em pó os passos

e tudo mudou no lugar do seu berço
mas nada nas árvores mudou presas
nas terras revoltas a golpes de vento,

Nada mudou no olhar azul do homem
feito nas colheitas de todos os frutos
nem a nostalgia das perdas do tempo

cujo desenho do rosto perdura no viço
dos moços pequenos sentados à parte
perdidos de se largarem às suas artes,

Os adultos alinhados à mesa lembram
o relincho da charrua puxada a mãos
e rodas de canções cantadas em coro

na aragem que não mudou o seu visco
e nada mudou no lugar do nascimento
da vida que agora ressurge celebrada,

Ventura marcou o lugar no seu tempo
entoando vigoroso uma canção à terra
sagrada da pertença de todos os sonhos

noventa anos cantados a solo ali dentro
de nós com os antepassados sorridentes
olhos agradecidos à sua esperança feliz.

Santo Estevão e Lisboa, Julho de 2003