03/05/2009

ANTICONSUMO


Como vai longe o dia, Maninho,
em que a gente podia ser comum

Entre ervas burras, folhas molhadas de mamona
e salsa
a gente podia ser
simplesmente
nossas mãos nossos pés nossos cabelos
e o que queimava dentro
no escuro

Como vai longe o tempo como as águas
batendo na amurada
alegremente
como os peixes
vivendo no seu músculo
o mistério do mundo

Ferreira Gullar [Toda poesia /Dentro da noite veloz]

02/05/2009

Já nada me impede


Já nada me impede
de nada e contudo
o pudor, ah o pudor
tão alto se levanta
e me detém sempre
de quase tudo dizer
livre que é afinal não
ser tudo parecendo

Faro, Agosto de 2008

29/04/2009

porosidade etérea

SAUDADES

Que luz mais forte me alumiou
Os sentidos sob o sol dourado,
Põe o chapéu dizia minha mãe
E rebelde fugia para o telhado.

Que cheiros mais inebriantes
Os canteiros floridos de rosas,
Assoa o nariz dizia minha mãe
Caindo eu quedas desditosas.

Que luz mais forte me alumiou
Os dias senão o sorriso franco
De minha mãe por vezes triste
Os pés firmes no chão branco.

Lisboa, 5 de Março de 2009

[Também no absorto pelo dia
do meu aniversário.]

27/04/2009

OFÍCIO DIÁRIO

25 de Abril

O longamente esperado dia
de todas as promessas e intenções
chegou enfim vestido de poesia
e de flores e canções.
.
Mas depressa o nevoeiro
toldou o que era puro e era inteiro,
mostrando que não trazia
no seu bojo nenhum Sebastião
capaz de exorcizar a sensação
de letargia.
.
E no entanto ficou como fronteira
das nossas vidas
desde aí para sempre divididas
de tal maneira
que amiúde a conversa nos impele
a falar do antes e depois dele.
.
Torquato da Luz

25/04/2009

25 de ABRIL

Um dia que se não repete

Único porventura secreto

Desconheço a luz divinal

Que o alumia lá ao longe

Num qualquer sítio perto

E recordo clara a sua voz

Seca em silêncio o vulto

Que na memória emerge

24/4/2009

21/04/2009

AO ENTARDECER

Fotografia de Hélder Gonçalves

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
.
Que pena que tenho dele!
Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
.
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
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Al atardecer, asomado por la ventana,
Y sabiendo de soslayo que hay campos en frente,
Leo hasta que me arden los ojos
El libro de Cesário Verde.
.
¡Que pena tengo de él!
Él era un campero
Que andaba preso en libertad por la ciudad.
Pero el modo en que miraba hacia las casas,
Y el modo como reparaba en las calles,
Y la manera como daba por las cosas,
Es el de quien mira hacia los árboles,
Y de quien desciende los ojos por el camino por donde va andando
Y anda reparando en las flores que hay por los campos...
.
Por eso él tenía aquella gran tristeza
Que él nunca dijo bien que tenía,
Pero andaba en la ciudad como quien anda en el campo
Y triste como aplastar flores en libros
Y poner plantas en jarros...
.
F E R N A N D O P E S S O A