03/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - VII


22

(…) Trabalhei no serviço o dia inteiro e, à tarde, escrevi em três horas de expectativa tenteada, um 7º soneto, que me parece o penúltimo das “evidências”.

25

Dei os sete sonetos (até agora) ao Casais (que já ouvira os 3 primeiros) a ler. Achou de “primeiríssima ordem” os 5 primeiros – com a reserva do final violento do 3º, que o choca -, menos bom o 6º, e o 7º ainda que muito bom, pareceu-lhe desviado da linha dos outros.

VII

Atentos sobre a terra ao que sem nós
connosco é o movimento em que levados
vamos criando qual somos criados
na recessão dos mundos fugitivos,

é nossa a luz que vemos, nossa a voz
com que a dizemos de astros apagados,
é nossa a carne com que estamos vivos,
e é dela a só ternura que abraçados

connosco esquece a distinção das cousas.
Humano escutarás, único vais
na numerosa multidão esquecida.

Ímpio de ti, se juras e não ousas
que teus vivos desejos se ergam tais
como em ti próprio aguarda uma outra vida.

Jorge de Sena

22-2-1954

02/07/2009

CASIMIRO DE BRITO

DO POEMA

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.

Canto Adolescente, 1961

01/07/2009

AINDA VALE A PENA

Ainda vale a pena escrever aos professores
que formaram o meu carácter passou muito
tempo, para quê escrever cartas a ausentes
de destinatário. É triste os que amei calado
nunca terem sabido do meu contentamento
por ser assim pouco dado a agradecimentos
escusas e pedidos de favores, salamaleques
e outros trejeitos que o tempo me ensinou
serem tão necessários para não morrermos
antes do tempo exacto da nossa morte certa
anunciada desde o tempo feliz das festas
inocentes quando uma caixa de cartão sorria
nas minhas mãos e nela passeava os meus
sonhos esquecidos. Nada volta ao princípio
a não ser quando por escrever restam cartas
abandonadas sem ninguém nelas reflectido.

3/5/2009

30/06/2009

EMILIO COCO


DEJADME ya con ellos, con mis muertos.
Con tía Franca y su tímida sonrisa
dentro del marco oval de oro falso,
que se angustia si a veces no acudo
a la cita habitual de cada sábado.
Debajo está tía Gina que ha llegado
en enero de este año a mi despecho,
sin avisarme se marchó en el día
del bautismo de Alessio. No debías
hacerme esta injusticia. Te he llorado
encerrado en mi cuarto en Espinardo
mientras comían paella con mariscos
y brindaban con cava catalán.
Un poco más arriba están mis padres,
él con trinchera y el cabello espeso,
ella con traje negro, demacrada.
Finalmente, lindando con el techo,
reunidos todos en el mismo nicho,
la madre y dos hermanos de las tías,
el abuelo Michele que leía,
para pasar el tiempo, la Gaceta,
mascando caramelos que compraba
con el diario en el bar de calle Roma.
Te hemos destinado el mejor sitio,
a la vista de todos, en el centro.
Faltan sólo la lápida y la foto.

(Inédito)

EMILIO COCO

In hartz

27/06/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - VI


22
Concluí pela manhã o 6º soneto.

VI

Ambígua identidade, incauto amor
que o vento esculpe em pedras do deserto
como as que, vagas, pelo mar incerto
o mesmo vento aos areais conduz;

serena insaciedade, ausente ardor,
limiar a que a não-vida a descoberto
assoma viva qual se fôra perto
a fímbria clara exposta a contra-luz;

marcado e repetido, ou imperceptível
e como que perene, o suceder
das coisas, cujo ser é noutras ser
a forma contornada e previsível;

- demoram-se as estátuas, e quebradas
serão tristeza de outras não talhadas.

Jorge de Sena

21-2-1954

23/06/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - V


21

O dia inteiro lutando com um 5º soneto. O que foi dolorosamente interrompido pela visita dos pais do Lemos* - que ouvi suspenso na aparência amável e divertida, mesmo simpatizando porque o estimo muito. Excelente a anedota autêntica de a Estrela Faria ter “ganho” na Bienal o prémio que o amante dela, um brásio rico, inventou com o próprio nome … e pagou (10 contos). Depois num aflitivo esforço de concentração, o soneto organizou-se, e terminei-o inteiramente outro do que planejara ou supusera que ele seria. E, enquanto escrevo, ouço a espectacular mas emocionante Rapsódia Hebraica de Block, para violoncelo e orquestra. Aprecio neste compositor a veemência e uma certa facilidade dramática que faltam, tão francamente sentimentais, em quase todos os modernos.
Envolvido no Zaratustra, de Strauss, sai-me o esperado soneto das galáxias (para o que refolheara o Eddington – ó eruditos do piolho catado!).

*Refere-se, certamente, aos pais de Fernando Lemos que, em 1953, havia emigrado para o Brasil.

V

Na antiga e fácil pátria da amargura
com qual quais chegam vossas vozes vão
quebrando as ondas minha voz mais pura
só de ter visto o mesmo coração

que como exílio fora não perdura,
eis-me silêncio arrebatado e não
nenhuma ausência ou extrema formosura
de um Deus que volta em pompa e escuridão.

Desnudo e em sangue, ai que não volta: existe
suspenso a vosso lado, e o duplo sexo
goteja embora no pudor perplexo
com que O não vedes na paisagem triste.

Eis-me que apenas me roubais quem sois:
se Deus deseja é desejar por dois.

Jorge de Sena

20-2-1954

21/06/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - IV


20

Um 4º soneto, que apareceu a correr pouco antes de eu ir para S. Carlos ouvir a Electra …

IV

Da solidão que o vosso mal povoa
de monstruosas mãos e duros dentes,
lá onde agudo só um latido ecoa,
e o amor se esconde em piolhosos pentes;

Do vácuo fedorento, excrementício,
com que de roubos vosso rasto acaba
idêntico a vós próprios desde o início,
que desde sempre foi a mesma baba;

Da solidão que dais e que roubais,
do vácuo que levais e que deixais,
do pavoroso nada que imitais
quando cobris dos ouropéis legais

o horror de estardes sós em companhia –
o mal que sois em mim se refugia.

Jorge de Sena

15-4-1954*

[Nos Diários a referência ao 4º soneto surge a 20 de Fevereiro pelo que a data acima, inscrita na 2ª edição de Poesia I é, declaradamente, uma gralha devendo ler-se 20-2-1954.]