08/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - VIII


26

Um 8º soneto (que deverá ocupar o lugar do 7º), um dos mais belos senão o mais belo – e que me emocionou tanto, que julguei que ia escrever logo outro. Mas era só emoção dele.

VIII

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa …
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena

22-2-1954

06/07/2009

O QUE ME PRENDE OS SENTIDOS À BELEZA


O que me prende os sentidos à beleza
é o presente dela, fulgor que me cega
é futuro que me destrói, ter a certeza
que ao certo nela nunca ninguém pega

Resvalam-me as mãos e hesito tocá-la
a beleza impregnada dos meus medos
é memória de sofrimentos por tomá-la
ai a pura beleza cega em seus enredos

É ela que me prende à vida. O encanto
se torna desejo, espera sábia do tempo
que se revê ao espelho, o breve pranto

que ecoa sob a luz refulgente, a beleza
é um fogo que me consome por dentro
é tudo, nada, uma insustentável leveza

30 de Junho de 2009

05/07/2009

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira

In “Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa”
de Eugénio de Andrade

03/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - VII


22

(…) Trabalhei no serviço o dia inteiro e, à tarde, escrevi em três horas de expectativa tenteada, um 7º soneto, que me parece o penúltimo das “evidências”.

25

Dei os sete sonetos (até agora) ao Casais (que já ouvira os 3 primeiros) a ler. Achou de “primeiríssima ordem” os 5 primeiros – com a reserva do final violento do 3º, que o choca -, menos bom o 6º, e o 7º ainda que muito bom, pareceu-lhe desviado da linha dos outros.

VII

Atentos sobre a terra ao que sem nós
connosco é o movimento em que levados
vamos criando qual somos criados
na recessão dos mundos fugitivos,

é nossa a luz que vemos, nossa a voz
com que a dizemos de astros apagados,
é nossa a carne com que estamos vivos,
e é dela a só ternura que abraçados

connosco esquece a distinção das cousas.
Humano escutarás, único vais
na numerosa multidão esquecida.

Ímpio de ti, se juras e não ousas
que teus vivos desejos se ergam tais
como em ti próprio aguarda uma outra vida.

Jorge de Sena

22-2-1954

02/07/2009

CASIMIRO DE BRITO

DO POEMA

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.

Canto Adolescente, 1961

01/07/2009

AINDA VALE A PENA

Ainda vale a pena escrever aos professores
que formaram o meu carácter passou muito
tempo, para quê escrever cartas a ausentes
de destinatário. É triste os que amei calado
nunca terem sabido do meu contentamento
por ser assim pouco dado a agradecimentos
escusas e pedidos de favores, salamaleques
e outros trejeitos que o tempo me ensinou
serem tão necessários para não morrermos
antes do tempo exacto da nossa morte certa
anunciada desde o tempo feliz das festas
inocentes quando uma caixa de cartão sorria
nas minhas mãos e nela passeava os meus
sonhos esquecidos. Nada volta ao princípio
a não ser quando por escrever restam cartas
abandonadas sem ninguém nelas reflectido.

3/5/2009

30/06/2009

EMILIO COCO


DEJADME ya con ellos, con mis muertos.
Con tía Franca y su tímida sonrisa
dentro del marco oval de oro falso,
que se angustia si a veces no acudo
a la cita habitual de cada sábado.
Debajo está tía Gina que ha llegado
en enero de este año a mi despecho,
sin avisarme se marchó en el día
del bautismo de Alessio. No debías
hacerme esta injusticia. Te he llorado
encerrado en mi cuarto en Espinardo
mientras comían paella con mariscos
y brindaban con cava catalán.
Un poco más arriba están mis padres,
él con trinchera y el cabello espeso,
ella con traje negro, demacrada.
Finalmente, lindando con el techo,
reunidos todos en el mismo nicho,
la madre y dos hermanos de las tías,
el abuelo Michele que leía,
para pasar el tiempo, la Gaceta,
mascando caramelos que compraba
con el diario en el bar de calle Roma.
Te hemos destinado el mejor sitio,
a la vista de todos, en el centro.
Faltan sólo la lápida y la foto.

(Inédito)

EMILIO COCO

In hartz