01/08/2009

CORPO INTEIRO

Gaylen Morgan

Para mim o
amor
fica-me justo

Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro

Maria Teresa Horta

24/07/2009

TEXTO-AL

O Texto-Al, Grupo Literário do Algarve, é um grupo informal de pessoas unidas pelo interesse e paixão pela literatura.

20/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - XI


4

Um 11º soneto.

XI

Marinha pousa a névoa iluminada,
e dentro dela os pássaros cantando
são crepitar das ondas doce e brando
na fímbria oculta e só adivinhada.

Verdes ao longe os montes na dourada
encosta pelos tempos deslisando,
suspensos pairam no frescor de quando
eram da sombra a forma congelada.

Ao pé de mim respiras. No teu seio,
como nas grutas fundas e sombrias
os animais pintados adormecem,

sereno seca um amoroso veio.
Um após outro hão-de secar-se os dias
na teia ténue que das eras tecem.

Jorge de Sena

1-3-1954 [Confirma-se o desfasamento devendo a referência feita, no dia 4 de Março de 1954, ao 11º soneto ser destinada aquele que na Poesia 1 surgirá a seguir com o nº 12.]

16/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - X


1 de Março

Esta manhã, um 10º soneto. Suponho que apenas faltam mais dois.
Fui ao aeroporto despedir-me do Couvreur, que ia na viagem que seria para mim. Como o avião vinha atrasado, aproveitei para procurar o Zé que há tanto tempo não via. E li-lhe os dez sonetos, de que ele gostou, achando que a “coisa” ainda vai a meio.(…)

X

Rígidos seios de redondas, brancas,
frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias;

torsos de finas, penugentas, frias,
enxutas linhas que nos rins se prendem,
sexos, testículos, que inertes pendem,
de hirsutas liras, longas e vazias

da crepitante música tangida,
húmida e tersa, na sangrenta lida
que a inflada ponta penetrante trila;

dedos e nádegas, e pernas, dentes.
Assim, no jeito infiel de adolescentes,
a carne espera, incerta, mas tranquila.

Jorge de Sena

27-2-54 [O soneto a que se refere Sena no “Diário” deve ser, na verdade, o 11º publicado em “Poesia I”].

12/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - IX


27

Esta manhã, um 9º soneto, obsceníssimo, mas demasiado formal, por demasiado “descritivo”. No entanto, é de certo modo o que eu queria fazer no sentido da violência. O Casais, a quem no café (a nossa “tertúlia” é este “tête-à-tête”, em que ele se torna muito mais o delicado que não quer, prudentemente, ser) o mostrei e ao de ontem, sentiu isso mesmo, porque disse: “Não gosto que se fale cerebralmente dessas coisas” (tomando cerebral pelo impressionismo descritivo). Vai proferir uma conferência sobre o Pessoa no Inst. Britânico; e ao Estorninho disse que para as influências inglesas era eu e não ele. Gostou muito do outro soneto. E achou, como eu acho, notável o artigo que o Lemos me mandou, e que vou rever para enviar ao C. Barreto.

IX

Com a mão brincando sem virtude ou vício,
o sexo antes do sexo pressentido,
conhecem-se as crianças, que, dormindo,
irão morrendo em sexo e juventude.

Da vã cidade o pálido bulício
em sonhos se dilui. Sombras sorrindo
afastam-se, crianças conduzindo
à virgindade ansiosa, austera e rude.

Pelas esquinas, no limiar da terra,
lá onde os sóis os prados ainda rasam
e as ervas vibram num tremor obscuro,

nocturno o espaço os milhares de olhos cerra,
sombras serão as crianças que se atrasam,
e a Graça, alheada, é o gesto ainda futuro.

Jorge de Sena

26-2-1954

10/07/2009

TORGA VISTO POR SENA (um episódio)


A propósito desta magnífica posta do Pedro Rolo Duarte ficou a bailar-me na memória uma leitura recente, muito interessante, e pouco simpática, na qual Jorge de Sena se refere a Torga. Pode ser lida nos “Diários” de Sena, no dia 24 de Fevereiro de 1954. Reza assim:

“Encontrei-me com o Guilherme Filipe, para ele me pagar a palestra de ontem. Conversámos um pouco com o Casais que depois saiu. Perguntei-lhe então pela mulher, que sei pior do juízo. Abriu-se então. A última crise começou nas vésperas da partida para o “Cruzeiro dos três continentes” (aquele cruzeiro em que certos excursionistas, segundo me contou o Bordalo, julgaram que as ruínas da Acrópole eram dos terramotos recentes … das ilhas gregas …). Numa crise de dinheiro o Guilherme vendeu uns quadros de que gostava muito, sem que ela, desgostosa por essa solução quando ele não tinha outra, dissesse uma palavra. Chega o Torga, o grande raiano dos arrabaldes de Vila Real de Trás-os-Montes, com um amigo. Também ia ao cruzeiro. E, com um gesto indicativo da memória aquilina que se “deve” supor que ele tem, pergunta: - Falta ali um quadro. Onde está aquele quadro de que eu gosto tanto? - Olhe, respondera o Filipe, precisei de dinheiro e vendi-o. – E por quanto? – Por 3 contos. – E a senhora consentiu? – perguntou o Torga à mulher do Filipe. E este, logo: - Não só consentiu, como não me disse ainda uma palavra a esse respeito. E o Torga, magnífico e magnânimo, abraçando o Filipe: - Ah que você ainda é mais desgraçado do que eu supunha. – E levantou-se para sair, depois de lamentar o mau agouro com que iniciara o “seu” cruzeiro e o não poder dar ele, em vez de ir na viagem, o dinheiro que o Filipe precisara … agora … - Então não janta? – perguntava triste. – Não, minha Senhora, não, que o que acontece aos meus amigos é como se me acontecesse a mim. – E durante a viagem fez sentir à senhora quanto era indigna esposa do pintor (coitado!) G. Filipe. Que grandecíssimo filho … ainda por cima sem sombra de delicadeza moral." (…)