05/08/2009

ESCREVO NO MOMENTO EM QUE ME APETECE

Escrevo no momento em que me apetece
Os ruídos na minha cabeça são os mesmos
Do tempo em que a minha cabeça tinha
Trinta ou quarenta anos menos e nela cabia
Um mundo de ilusões como se diz amiúde

Escrevia uma banalidade se me apetecia
Para espairecer do tempo que me sobrava
Do tempo em que me esquecia do tempo
E olhava para dentro do meu corpo sempre
Como quem apreciava uma memória actual
Que se esgotava no acto de viver o momento

Escrevia sem olhar à geometria dos versos
Se versos eram as palavras alinhadas atrás
Umas das outras qual ilusão criando espaços
Para o meu corpo respirar dentro da cabeça
Que volteava sobre si própria como um moinho
De vento que empurra uma vela desfraldada
Ao luar da primavera que diziam iria acabar
Pois tudo acabaria e havia de se transfigurar

Escrevo com a imagem da geometria dos versos
De ferreira gullar na minha cabeça cantando a
Apetecida vontade de escrever sem medo de ser
Dominado pelo automatismo da escrita, um medo
Antigo, que se não conjuga com a liberdade
Que me manda escrever sempre no momento
Que me apetece com os ruídos nela presentes

7/5/2009

01/08/2009

CORPO INTEIRO

Gaylen Morgan

Para mim o
amor
fica-me justo

Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro

Maria Teresa Horta

24/07/2009

TEXTO-AL

O Texto-Al, Grupo Literário do Algarve, é um grupo informal de pessoas unidas pelo interesse e paixão pela literatura.

20/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - XI


4

Um 11º soneto.

XI

Marinha pousa a névoa iluminada,
e dentro dela os pássaros cantando
são crepitar das ondas doce e brando
na fímbria oculta e só adivinhada.

Verdes ao longe os montes na dourada
encosta pelos tempos deslisando,
suspensos pairam no frescor de quando
eram da sombra a forma congelada.

Ao pé de mim respiras. No teu seio,
como nas grutas fundas e sombrias
os animais pintados adormecem,

sereno seca um amoroso veio.
Um após outro hão-de secar-se os dias
na teia ténue que das eras tecem.

Jorge de Sena

1-3-1954 [Confirma-se o desfasamento devendo a referência feita, no dia 4 de Março de 1954, ao 11º soneto ser destinada aquele que na Poesia 1 surgirá a seguir com o nº 12.]

16/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - X


1 de Março

Esta manhã, um 10º soneto. Suponho que apenas faltam mais dois.
Fui ao aeroporto despedir-me do Couvreur, que ia na viagem que seria para mim. Como o avião vinha atrasado, aproveitei para procurar o Zé que há tanto tempo não via. E li-lhe os dez sonetos, de que ele gostou, achando que a “coisa” ainda vai a meio.(…)

X

Rígidos seios de redondas, brancas,
frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias;

torsos de finas, penugentas, frias,
enxutas linhas que nos rins se prendem,
sexos, testículos, que inertes pendem,
de hirsutas liras, longas e vazias

da crepitante música tangida,
húmida e tersa, na sangrenta lida
que a inflada ponta penetrante trila;

dedos e nádegas, e pernas, dentes.
Assim, no jeito infiel de adolescentes,
a carne espera, incerta, mas tranquila.

Jorge de Sena

27-2-54 [O soneto a que se refere Sena no “Diário” deve ser, na verdade, o 11º publicado em “Poesia I”].

12/07/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - IX


27

Esta manhã, um 9º soneto, obsceníssimo, mas demasiado formal, por demasiado “descritivo”. No entanto, é de certo modo o que eu queria fazer no sentido da violência. O Casais, a quem no café (a nossa “tertúlia” é este “tête-à-tête”, em que ele se torna muito mais o delicado que não quer, prudentemente, ser) o mostrei e ao de ontem, sentiu isso mesmo, porque disse: “Não gosto que se fale cerebralmente dessas coisas” (tomando cerebral pelo impressionismo descritivo). Vai proferir uma conferência sobre o Pessoa no Inst. Britânico; e ao Estorninho disse que para as influências inglesas era eu e não ele. Gostou muito do outro soneto. E achou, como eu acho, notável o artigo que o Lemos me mandou, e que vou rever para enviar ao C. Barreto.

IX

Com a mão brincando sem virtude ou vício,
o sexo antes do sexo pressentido,
conhecem-se as crianças, que, dormindo,
irão morrendo em sexo e juventude.

Da vã cidade o pálido bulício
em sonhos se dilui. Sombras sorrindo
afastam-se, crianças conduzindo
à virgindade ansiosa, austera e rude.

Pelas esquinas, no limiar da terra,
lá onde os sóis os prados ainda rasam
e as ervas vibram num tremor obscuro,

nocturno o espaço os milhares de olhos cerra,
sombras serão as crianças que se atrasam,
e a Graça, alheada, é o gesto ainda futuro.

Jorge de Sena

26-2-1954