01/09/2009

TRÊS POEMAS


Jarrett Murphy

Três poemas de aniversário escritos em guardanapos de papel, transcritos para postais ilustrados, à beira da Doca de Faro em 3 de Março de 2007.


Telhados

Para a Alexandra

Todas as cidades
Têm telhados

Os telhados das cidades
Olhados

Por qualquer dos lados
São o fim da construção

Todos nós temos telhados
Olhados

Por todos os lados
São a nossa formação!

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O jerico

Para a Bel

O jerico atento
Olha-nos de frente

Será que ele se sente
Em vias de extinção?

O teu canudo não mente
Doutoralmente.

Será que ele não sente
O jerico atento

À tua aflição?

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A idade

Para a D. Elvira

A idade é uma janela
Grande
Para olhar a cidade

A idade não tem idade
Como a janela
Da cidade

Olha-se para a idade
Que é feito dela
A idade?

[variantes]

31/08/2009

AO LONGE AS MÃOS

Ao longe as mãos de todos os afectos
Tocam-me e não as sinto na memória,
Ao longe o tempo escarnece do corpo
Que trago dentro de mim estremeço,
Ao longe o eco dos passos longínquos
Alinhados numa corrente de gerações,
Ao longe a árvore frondosa da frente
Ensombrando a tragédia da ausência,
Ao longe hei-de ser visto pelos meus
Sob o silêncio de seus olhares ternos.

8/3/2009

27/08/2009

UMA SOMBRA



Uma sombra clara transparente

Desenhada a lances de olhar só

Mais nada, casual, livre e sente

A volúpia, meu olhar carnívoro

Sua sombra deitada e paciente

Adivinho-a sombreada a vozes

Ciciadas, vejo dobras no corpo

Sinais e apelos, o fim do tempo

27/8/2009

26/08/2009

EPIGRAMAS

Na esquina da tela vislumbro um corpo. no cimo do corpo um olhar. pousada no colo uma mão. a fascinante arte da sedução.

*
Nada nos distingue a não ser tudo o que a nossa mão não alcança.

*
O caminho circula em tua volta, percorro-o ao longo dos dias e vejo-te acenar do outro lado. Não sei que penas levas no coração, as minhas sei que não podem ser tuas.

*
Quem espera sempre alcança, quem ri por fim ri melhor, o corpo dela balança, suspiro, agarro-me à esperança e, enquanto o corpo avança, espero o pior.

*
Sonhei que a liberdade é azul a cor dos mares do sul. À sombra dela vislumbrei um corpo livre que me procurava e, súbito, acordei.

*
Em busca da palavra no caminho me perdi e encontrei teu rosto inclinado no espelho no qual me revi em memórias e esperas.

*
O ângulo de teu corpo na esquadria do ecrã faz de ti uma maçã.

*
O sorriso ao cimo da escada, um dorso, uma fala: olá és tu? Sou eu, tudo e nada.

*
Sábias as palavras não ditas, espessas como a ansiedade que nos sobressalta.

*
Subindo a encosta se conhece o vento e se encurta a distância para o cume.

24/08/2009

ENTER


criada por Heloisa Buarque de Hollanda,
a partir daqui.

23/08/2009

GOSTO

Ferdinando Scianna

Gosto que me tomes
me abras
me invadas

Me voltes e tornes
me envolvas
e faças

Gosto que me entornes
me abraces
me lavres

Me beijes e bebas
me enlaces
e largues

Gosto que me voltes
me pegues
me mates

Me dês um nó
cego
e depois me desates

In Inquietude – Poesia Reunida

15/08/2009

"AS EVIDÊNCIAS" - XII

Sophie Thouvenin

XII

Uma outra vida espera em vosso peito.
Dentro do meu que em gestos se condensa
a carne fala e vibra, a carne pensa
por vós como por mim, que não aceito

mais que a linguagem de ter sido eleito
igual aos outros: tão igual, que sou
a identidade vária com que vou
sendo a diferença dolorosa – o jeito

de uma pura perda celebrar o amor,
sagrando-vos humanos e lembrados
na plena luz a que viveis os fados.

Beijemo-nos então. Língua na língua,
essa outra vida que trazeis, distingo-a,
e como liberdade aceito a dor.

Jorge de Sena

6-3-1954