22/06/2010

AS TUAS MÃOS


Pamela Creevey

não quero deixar
as tuas mãos sem o meu
corpo

elas o conhecem
melhor que quaisquer
outras

quais mãos amantes
que o penetram fundo
e o saciam

as tuas mãos um dia virão
à minha presença
a sós

para me violarem a alma
mais além
do meu corpo

ciciando doces palavras
de desejo em voo
nocturno

carícia final
que me faz sonhar
no gesto que me possua

Lisboa, 3 de Setembro de 2003



19/06/2010

A BEM DA NAÇÃO


Fotografia de Hélder Gonçalves

Posso sair por uns instantes
daquele que me dou a conhecer
e todos reconhecem pela imagem de um homem
honesto perfilado no pedestal da probidade
reconhecidamente probo - bela palavra probo -
ou seja incapacitado por sua natureza de cometer
qualquer imprudência inqualificável
que o leve a ser apontado na esquina
da rua no largo no bairro na baixa
da sua cidade como aquele que é igual
a todos os outros
a todos os demais
menores denominadores comuns sociais
incendiários stritu sensu
ou incendiários de prazeres imorais.

São todos iguais
disse na televisão: é verdade.

Posso sair por uns instantes
desta incomoda posição de parecer normal
e de cumprir com a minha obrigação?
Deixem-me assumir uma pose de Estado
e afiambrar um discurso que me devolverá à liberdade
de ser suspeito antes de ser condenado.

Deixem-me ser eu próprio a confessar os factos
as faltas os erros os desvios e que mais...
não se macem em pôr notícias nos jornais
eu próprio me reconheço autor confesso
do descalabro da coisa pública.

Um horror a coisa pública
vista daquele ângulo da casa de banho
agachada em postura declaradamente impudica.

Gente sem preparo nem fato assertoado
antecedida e procedida por igual
de uma ineficácia confrangedora
diz a directoria do DN no editorial.

Que mais se espera do que ser removida
a coisa publica
com o devido asseio
e dentro da mais estrita legalidade.

Descansem todos os honestos coitados
quantos cuidam de não trair
sua boa reputação

podeis continuar a trabalhar,

A Bem da Nação

Lisboa, Agosto de 2003

[A propósito da morte de José Saramago uma série de poemas de 2003 na sua maioria inéditos.]





15/06/2010

QUANDO A NOITE SE PÕE EM SILÊNCIO


Gaylen Morgan

Quando a noite se põe em silêncio
Depuram-se todos os sons íntimos
E oiço ao longe a voz da esperança
Entoar cânticos nos rostos antigos

s/data

13/06/2010

Sem título


Fotografia de Hélder Gonçalves

estamos todos nós
cheios de vozes
que a mais das vezes
mal cabem na nossa voz

13/06/2010

11/06/2010

FAZ TEMPO


Fotografia de Hélder Gonçalves

Faz tempo que não assoma ao meu coração
O calor de um calafrio um estremecimento
Um arrepio a picada íntima, luxúria, alento
Salto vital retirada do labirinto da maldição,

Faz tempo, muito tempo, não sei dizer quão
Quanto e qual mesmo nada acontece de real
Nem uma vaga palpitação no membro, o tal
Nada apetece do que me apetece penetração,

Faz tempo que o tempo se esvai a caminhar
Se escoa, se desalinha e enfim me entristece
Se o olho direito de frente ele desvia o olhar

E vira espelho e no reflexo me vejo definhar
Sem saber afagar o corpo que se me oferece
Faz tempo que o desejo paira suspenso no ar

Lisboa, 12 de Janeiro de 2004

05/06/2010

O que desejava dizer-te


O que desejava dizer-te não pode ser escrito
E a distância de todos os tempos nos separa.
O que nos resta? Respirar o ar que é o nosso
Próprio ar, ardendo em nossas bocas únicas,
Sequiosas de ser desfrutadas, prazer da luta
Pela vida contra a morte dos nossos corpos
Unidos afinal pela distância que nos separa.

3/6/2010

03/06/2010

Lemos muita coisa e esquecemos


Justine Reyes

Lemos muita coisa e esquecemos
Do que lemos quase tudo menos
O que fica do que lemos gravado
Em algum lugar que não sabemos
Onde situar em nosso corpo qual
Última morada secreta e fechada
Que cria a memória do que lemos

3/6/2010