20/09/2010

CULPABLE DE AMOR


Fotografia de Hélder Gonçalves


La ciudad te prefiere para la insurrección; hoy serás verdadero. Todo el mundo hace fuerza, compite y se desquicia despreciando al vecino, o a famosos sin fondo que no importan a nadie. Hay gente haciendo cuentas para ver lo que gastas, lo que vas a ganar, clasificando el brillo de tus ojos en una entre cuarenta y cinco calidades de vida. Pero ellos no entienden. Sólo miden el barro, sólo estudian lo que no tiene importancia. Pero hay algo más.

Debajo de cada perfil, de cada rostro, más allá de sus dotes y sus títulos, por detrás de su acento y de la perfección de su piel, existe una persona. ¿Porqué nos olvidamos? Selva santa y oscura, y luminosa de su corazón, su pasado y sus gestos, cuando nos la encontramos en su desnudez, podemos aceptarla. Entrar en ese bosque con el tacto sagrado, reconocer los vientos dominantes, beber su vibración y su energía.

Vas a ser el primero. Vas a entrar en la máquina vorágine de la ciudad y vas a abrir caminos. Vas a ver simplemente. Personas como simples sonidos, pabellones de ser de fondo sordo, como infinitas caracolas. Pon en ellas tu oído. Acepta su otro espacio. A alguna amarás; las amarás a todas. Alguna sabrá verte, igual sepa escucharte. Entrará en tu cadencia, en tu espacio de onda. Amarás cuesta abajo. Te habrás emancipado. Y por tu desobediencia serás declarado culpable, culpable de amor y tu condena será la libertad, pero entonces tú ya no tendrás miedo.

JUAN ANTONIO MARÍN

hartz

28/08/2010

A noite


Seguro a noite nas mãos

A noite aqui está quente

Lugar dos serões a noite

Nela cabe todo o tempo

28/08/2010

22/08/2010

Palavras


Missy Gaido Allen

Palavras, letras organizadas que deslizam
Ao longo de minha boca sussurradas tais
Flores de cores vivas enchendo canteiros
Plantados na minha memória rosas ternas

Cheiro à terra de horizontes indecifráveis
E as mãos firmes que me prendem à vida
Como as vejo hoje cansadas de ser assim
Palavras, um mundo de gente em silêncio

22/08/2010

16/08/2010

Tantas emoções




Tantas emoções na terra de ninguém
Incessante busca no interior de mim
Um corpo que responde e desespera
E se assusta de si, descobrindo além
Na carne de que é feito um outro eu

E rejubila na quebra dos anos afinal
Os primeiros do fim memória suave
Onde cabem todos os afectos novos
Sobrepostos aos antigos mortos sem
Rosto nem moldura tão pouco rastro     

16/08/2010

21/07/2010

"Glosa à chegada de Godot" (excerto)


Do que não desespero é muito pouco
fugaz e breve e, sem que se repita,
de não se repetir, retorna sempre.

.....

É desespero tudo, mas repete-se
tão sem se repetir, tão sempre de outros,
tão noutros e com outros que esperamos
o mais que ainda virá. Às vezes nada.
O Sim. O Não. Um simples hesitar.
Às vezes muito pouco. O pouco. O muito.
O desespero é fácil tal como esperar.

"Glosa à chegada de Godot" (1959), in Post-Sriptum

Jorge de Sena

17/07/2010

ANIVERSÁRIO


Estou assim cansado
ao lado de meus pais mortos
libertado

Cercado de dores mansas
ouvindo ao perto o rugir
das lanças

Mortificado por uma nódoa
assaz mesquinha
insólita

Lendo poetas de todos os tempos
desalinhados
em suas linhas

Estou assim cansado
procurando-me na perdição
de ser achado

Lisboa, 28 de Abril de 2003

14/07/2010

Não me esqueço de ti ...


Não me esqueço de ti. Tanto tempo passou
e eu aqui esperando em silêncio.
Não me esqueço de todos os que me desejaram
e não pressenti.
Esquecer o que não se conheceu não é normal
normal é esquecer o que se conheceu e nos faz sofrer.

Deixei passar o tempo? Não foi esquecimento
foi falta de lembrança.
Pode ser essa a minha esperança.
Palavra maldita para os poetas.
Pasolini transformou-a numa palavra ausente
mas a esperança ainda espreita por uma frincha aberta no presente.

Vivo das vozes que me ouvem
mesmo quando duvido que me oiçam.
E deixo no vazio o apelo de palavras que agonizam.
Claro que não me serve de consolo o silêncio eterno.
Pode ser que me responda uma voz qualquer
mesmo que não seja aquela por cuja resposta desespero.

E assim passo o dia-a-dia na procura de quem me responda,
uma resposta audível, brutal ou segredada,
tanto dá mas que me faça companhia.
Para que se possa tornar ausente preciso que se apresente
e que vozes livres clamem:
ausente, ausente, ausente…

Por fim ficarei silente no sítio de onde nunca parti
mas não me esqueço de ti.

Lisboa, 8 de Setembro de 2003