04/01/2008

EQUILÍBRIO INSTÁVEL


Assim me equilibro em cima de uma linha
Ora tensa ora bamba olhando em frente
Por entre finos espaços nos quais confio
E estremeço só de pensar um momento
Que de confiar não é feita a vida da gente
Assim deslizo à tona da água das levadas
Ora límpida ora barrenta tal como a terra
De que é feita a carne que me sustenta
E me tem de pé neste equilíbrio instável
A caminhar além dos confins da memória

2/1/2008

02/01/2008

Barbara Morgan

Cerne claro, cousa
aberta;
na paz da tarde ateia, bran-
co,
o seu incêndio.

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Quartel” in “A Luta Corporal” (1950-1953)José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

30/12/2007

ANO NOVO


Ouço o mar
lá longe
sob o céu

Ouço o silêncio
gotejar
na noite espessa
É tarde
(mas não me canso)
como no tempo jovem
hoje um ribeiro manso

Como depois de amanhã
nasce um ano novo

30/12/2007

28/12/2007

A FALA (II)

Posted by PicasaChaco Terada

Assim é o trabalho. Onde a luz da palavra
torna à sua fonte,
detrás, detrás do amor,
ergue-se para a morte, o rosto.

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” - “A Fala” in “A Luta Corporal” (1950-1953)
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

27/12/2007

"PASSANDO ONDE HAJA TÚMULOS..."


Passando onde haja túmulos
- e há pó de humanos sempre onde se passe –
quanta maldade jaz ali dispersa
pronta a ser respirada por outros homens
qua a têm na carne como herança dela:
quanta traição mesquinha range os dentes
e faz as suas contas de futuro:
quanta vileza ainda se espoja em raiva
de não ter sido uma vileza inteira.
E é isto a humanidade.

Mas entre o pó das serras e dos montes
de campos e desertos e florestas,
ou nesse pó que como manto fluido
pousou gelatinoso na mais funda treva
do mar profundo – quanto sonho jaz
de uma grandeza sempre massacrada
traída e condenada por aqueles
que são a humaniddae.

Não foram nunca as circunstâncias nem a história
nem o destino nem a providência
quem matou a grandeza em qualquer coisa
império ou obra ou simples gesto vivo
de ser-se por instantes feliz.
Mas sempre o assassino que se esconde
na outra humanidade.

Passamos entre o pó de assassinados
e o de assassinos. E seremos pó
como eles são. Impunes estes sempre,
inconsolados ainda e sempre aqueles.
Nenhuma paz nos paga da maldade.

27/5/1971
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (30).]

26/12/2007

QUE QUERES?


Que queres? Que te fale da amor?
Que te diga de como te adivinho?
Que te revele qual o meu temor?
Que te dê a mão a meio caminho?
Que queres que te diga? Sim, não?
Nunca, talvez? A distância infinita?
Uma sibila longínqua, qual verão?
O inverno? O futuro ou a desdita?
Que queres? Que te afague a dor?
Ou que te prenda na palavra dita?

9/12/2007

21/12/2007

NATAL DE 1971


Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem trás às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homems
devem estender-se a mão?

Novembro 71
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – dando um pequeno salto na selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (29).]