12/06/2008

Noite de Natal


Fim da noite de Natal.

Já madrugada o silêncio

Caiu sobre a casa afável.

29/12/2007

[25 Poemas. Selecção de poemas escritos, a lápis, nas páginas do livro “Toda a Poesia”, de Ferreira Gullar, 15ª edição, José Olympio, Editora.]

06/06/2008

PEQUENAS COISAS

Peggy Washburn

O meu quotidiano é feito de pequenas coisas.
Afinal sempre assim foi mesmo quando pensei
que eram grandes as coisas que antes fazia.
Mas com a passagem silenciosa do tempo
sem vergonha no seu caminhar vagaroso,
passo a passo, linha a linha, deslocada a vida
do lugar onde a imaginei, plena e virtuosa,
encontro um lugar vazio no qual ressoam
simplesmente as pequenas coisas de ninguém.
E eu próprio sou uma dessas pequenas coisas!

4/6/2008

03/06/2008

ELOGIO DA VIDA MONÁSTICA

Jorge de Sena
(pelo 30º aniversário da sua morte)

Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,

o ter-se uma alma que jogar e perder.

26/9/65

Jorge de Sena

In TEMPO DE PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA (1959-1969)
40 ANOS DE SERVIDÃO – Círculo de Poesia – Moraes Editores

02/06/2008

JORGE DE SENA - pelo 30º aniversário da sua morte (III)


“NUNCA NINGUÉM AO CERTO NOS CONHECE”

Nunca ninguém ao certo nos conhece.
Quem bem repara menos vê ou vê
mais e melhor o quanto reparou.
Por isso, anos passados, recordando,
folheando as folhas para tal guardadas,
olhando uns vãos desenhos em que há sempre
sebentas, livros, um amor sabido,
e lendo versos, em que há sempre livros,
o mesmo amor, sebentas, e talvez
alguma graça já sem graça alguma,
tão docemente o recordar se aviva,
que não distingue … outros recorda … esquece.

E como reparar-se em quem não pára?
Em quem do Porto a Coimbra se prepara
para a viagem de Coimbra ao Porto?
Em quem trabalha e estuda em correria
sem ter tempo a perder na Academia?

E pois que da amizade nestes livros
só ficará quanta morrer na vida,
folheai, lembrai, guardai nos papéis velhos,
que o resto, o mais, o que afinal é tudo,
aqui não está – ou, estando, não é vosso.

6/2/48

Jorge de Sena

In TEMPO DE PEDRA FILOSOFAL (1945-1950)
40 ANOS DE SERVIDÃO (Círculo de Poesia – Moraes Editores)

JORGE DE SENA - pelo 30º aniversário da sua morte (II)

.
VER

Tu julgas que procuro, e não procuro.
Tu julgas que eu aceito, e não aceito.
Nem de aceitar nem procurar é feita a minha vida.
Sabes? Será que alguma vida
é feita do que julgas?
No coração mental das tuas flor´s perdidas
há um pequeno núcleo enegrecido,
que enegreceu à falta de o olhares.
Não julgues, olha-o.
Olha-o por amor da minha vida.
Verás que se desdobra imaculado.
Estarei pensando fugidiamente em como
será que o olhas. Nada mais farei.

1951

Jorge de Sena

Post-Scriptum [1960] - In Poesia I (Moraes editores 2ª Edição – 1977)