Mostrar mensagens com a etiqueta FERREIRA GULLAR. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FERREIRA GULLAR. Mostrar todas as mensagens

03/05/2009

ANTICONSUMO


Como vai longe o dia, Maninho,
em que a gente podia ser comum

Entre ervas burras, folhas molhadas de mamona
e salsa
a gente podia ser
simplesmente
nossas mãos nossos pés nossos cabelos
e o que queimava dentro
no escuro

Como vai longe o tempo como as águas
batendo na amurada
alegremente
como os peixes
vivendo no seu músculo
o mistério do mundo

Ferreira Gullar [Toda poesia /Dentro da noite veloz]

15/02/2008

DOIS E DOIS: QUATRO

Andrew Sovjani

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.


Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “Dentro da Noite Veloz (1962/1975) ”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

31/01/2008

MEU POVO, MEU POEMA

Carlos Tarrats

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta


Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “Dentro da Noite Veloz (1962/1975)”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

23/01/2008

DEZEMBRO

Rita Bernstein

Fora da casa
o dia mantém solidário
seu corpo de chama e de verdura

Dia terrestre,
falam num mesmo nível de fogo
minha boca e a tua

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Vil Metal (1954-1960)”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

11/01/2008

OSWALD MORTO

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional


NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Vil Metal (1954-1960)”
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

07/01/2008

OCORRÊNCIA

Teresa Dias Coelho

Aí o homem sério entrou e disse: bom dia
Aí o outro homem sério respondeu: bom dia
Aí a mulher séria respondeu: bom dia
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores, as paredes
o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros, o mata-borrão, os
sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços.

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Vil Metal (1954-1960)” José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

02/01/2008

Barbara Morgan

Cerne claro, cousa
aberta;
na paz da tarde ateia, bran-
co,
o seu incêndio.

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” – “O Quartel” in “A Luta Corporal” (1950-1953)José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

28/12/2007

A FALA (II)

Posted by PicasaChaco Terada

Assim é o trabalho. Onde a luz da palavra
torna à sua fonte,
detrás, detrás do amor,
ergue-se para a morte, o rosto.

Ferreira Gullar

“Toda Poesia” - “A Fala” in “A Luta Corporal” (1950-1953)
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

01/12/2007

A FALA (I)


(…)

Não te posso dizer: “vamos” – senão por aqui.
A infância dentro da luz dum musgo que os bichos
comem com a sua boca.
Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem.
Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,
a alegria debaixo das palavras.

(…)

“Toda Poesia” - “A Fala” in “A Luta Corporal” (1950-1953)
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

[Excertos da leitura de “Toda Poesia”, de Ferreira Gullar, (1) enquanto escrevo, a lápis, nas suas páginas uma série de poemas alguns dos quais publicarei conforme o tempo e a disposição.]