30/12/2010

PABLO NERUDA



Y PORQUE Amor combate
no sólo en su quemante agricultura,
sino en la boca de hombres y mujeres,
...terminaré saliéndole al camino
a los que entre mi pecho y tu fragancia
quieran interponer su planta oscura.
De mí nada más malo
te dirán, amor mio,
de lo que yo te dije.
Yo viví en las praderas
antes de conocerte
y no esperé el amor sino que estuve
acechando y salté sobre la rosa.
Qué más pueden decirte?
No soy bueno ni malo sino un hombre,
y agregarán entonces el peligro
de mi vida, que conoces
y que con tu pasión has compartido.
Y bien, este peligro
es peligro de amor, de amor completo
hacia toda la vida,
hacia todas las vidas,
y si este amor nos trae
la muerte o las prisiones,
yo estoy seguro que tus grandes ojos,
como cuando los beso
se cerrarán entonces con orgullo,
en doble orgullo, amor,
con tu orgullo y el mío.
Pero hacia mis orejas vendrán antes
a socavar la torre
del amor dulce y duro que nos liga,
y me dirán: -"Aquella
que tú amas,
no es mujer para ti,
por qué la quieres? Creo
que podrías hallar una más bella,
más seria, más profunda,
más otra, tú me entiendes, mírala qué ligera,
y qué cabeza tiene,
y mírala cómo se viste
y etcétera y etcétera."
Y yo en estas líneas digo:
así te quiero, amor,
amor, así te amo,
así corno te vistes
y como se levanta
tu cabellera y como
tu boca se sonríe,
ligera como el agua
del manantial sobre las piedras puras,
así te quiero, amada.
Al pan yo no le pido que me enseñe
sino que no me falte
durante cada día de la vida.
Yo no sé nada de la luz, de dónde
viene ni dónde va,
yo sólo quiero que la luz alumbre,
yo no pido a la noche
explicaciones,
yo la espero y me envuelve,
y así tú, pan y luz
y sombra eres.
Has venido a mi vida
con lo que tú traías,
hecha
de luz y pan y sombra te esperaba,
y así te necesito,
así te amo,
y a cuantos quieran escuchar mañana
lo que no les diré, que aquí lo lean,
y retrocedan hoy porque es temprano
para estos argumentos.
Mañana sólo les daremos
una hoja del árbol de nuestro amor, una hoja
que caerá sobre la tierra
como si la hubieran hecho nuestros labios,
como un beso que cae
desde nuestras alturas invencibles
para mostrar el fuego y la ternura
de un amor verdadero

Pablo Neruda
[Daqui]

28/12/2010

No entanto escrevo



No entanto escrevo e reescrevo lavrando a página branca
com as palavras nascidas do que resta de mim em tudo
o que me faz viver nos outros, longínquos traços riscados
no que escrevo e reescrevo na busca pudica e incessante
das palavras exactas, tumulto amainado através do risco
de lavrar a página branca com as palavras que por vezes
no que escrevo morrem loucas por saber do que escrevo

27/Dez/2010

26/12/2010

escrever



escrever pode ser divertido. mas é preciso aprender
a escrever escrevendo não quando nos apetece mas
todos os dias ou quase que é o que custa aprender
a escrever. o trabalho de ao escrever ver as imagens
surgirem na cabeça não por as ter visto mas porque
a escrever se desenham as imagens que nunca vimos

26 Dez. 2010

04/12/2010

INVENTARIO

Un diente de oro que ríe de los panfletos

Un marido finalmente ignorante

Dos cuervos incluso muy negros

Un policía que se dice responsable


La costurera muy desgraciada

Una máquina infernal de echar humo

Un profesor que no sabe casi nada

Un colosalmente buen alumno


Un revólver ya desengañado

Un niño enfermo de alegría

Un enorme tiempo derrochado

Un adepto de la simetría


Un conde que enrojece al ser condecorado

Un hombre que ríe de tristeza

Un amante perdido encontrado

Un saltamontes llamado sorpresa


El desertor que canta en el coro

Un pícaro que viene paso a paso

Un señor vestidísimo de negro

Un organista que perdió la fe


Un sujeto que engaña a los amorosos

Una pipa que canta la marsellesa

Dos detenidos en verdad peligrosos

Un momentito de belleza


Un octogenario divertido

Un chiquillo que colecciona cubiertas

Un congresista que dice Yo no prosigo

Una vieja que muere en páginas inciertas.

ALEXANDRE O'NEILL

[Tradução propriedade de HARTZ, com a devida vénia.]

20/09/2010

CULPABLE DE AMOR


Fotografia de Hélder Gonçalves


La ciudad te prefiere para la insurrección; hoy serás verdadero. Todo el mundo hace fuerza, compite y se desquicia despreciando al vecino, o a famosos sin fondo que no importan a nadie. Hay gente haciendo cuentas para ver lo que gastas, lo que vas a ganar, clasificando el brillo de tus ojos en una entre cuarenta y cinco calidades de vida. Pero ellos no entienden. Sólo miden el barro, sólo estudian lo que no tiene importancia. Pero hay algo más.

Debajo de cada perfil, de cada rostro, más allá de sus dotes y sus títulos, por detrás de su acento y de la perfección de su piel, existe una persona. ¿Porqué nos olvidamos? Selva santa y oscura, y luminosa de su corazón, su pasado y sus gestos, cuando nos la encontramos en su desnudez, podemos aceptarla. Entrar en ese bosque con el tacto sagrado, reconocer los vientos dominantes, beber su vibración y su energía.

Vas a ser el primero. Vas a entrar en la máquina vorágine de la ciudad y vas a abrir caminos. Vas a ver simplemente. Personas como simples sonidos, pabellones de ser de fondo sordo, como infinitas caracolas. Pon en ellas tu oído. Acepta su otro espacio. A alguna amarás; las amarás a todas. Alguna sabrá verte, igual sepa escucharte. Entrará en tu cadencia, en tu espacio de onda. Amarás cuesta abajo. Te habrás emancipado. Y por tu desobediencia serás declarado culpable, culpable de amor y tu condena será la libertad, pero entonces tú ya no tendrás miedo.

JUAN ANTONIO MARÍN

hartz

28/08/2010

A noite


Seguro a noite nas mãos

A noite aqui está quente

Lugar dos serões a noite

Nela cabe todo o tempo

28/08/2010

22/08/2010

Palavras


Missy Gaido Allen

Palavras, letras organizadas que deslizam
Ao longo de minha boca sussurradas tais
Flores de cores vivas enchendo canteiros
Plantados na minha memória rosas ternas

Cheiro à terra de horizontes indecifráveis
E as mãos firmes que me prendem à vida
Como as vejo hoje cansadas de ser assim
Palavras, um mundo de gente em silêncio

22/08/2010

16/08/2010

Tantas emoções




Tantas emoções na terra de ninguém
Incessante busca no interior de mim
Um corpo que responde e desespera
E se assusta de si, descobrindo além
Na carne de que é feito um outro eu

E rejubila na quebra dos anos afinal
Os primeiros do fim memória suave
Onde cabem todos os afectos novos
Sobrepostos aos antigos mortos sem
Rosto nem moldura tão pouco rastro     

16/08/2010

21/07/2010

"Glosa à chegada de Godot" (excerto)


Do que não desespero é muito pouco
fugaz e breve e, sem que se repita,
de não se repetir, retorna sempre.

.....

É desespero tudo, mas repete-se
tão sem se repetir, tão sempre de outros,
tão noutros e com outros que esperamos
o mais que ainda virá. Às vezes nada.
O Sim. O Não. Um simples hesitar.
Às vezes muito pouco. O pouco. O muito.
O desespero é fácil tal como esperar.

"Glosa à chegada de Godot" (1959), in Post-Sriptum

Jorge de Sena

17/07/2010

ANIVERSÁRIO


Estou assim cansado
ao lado de meus pais mortos
libertado

Cercado de dores mansas
ouvindo ao perto o rugir
das lanças

Mortificado por uma nódoa
assaz mesquinha
insólita

Lendo poetas de todos os tempos
desalinhados
em suas linhas

Estou assim cansado
procurando-me na perdição
de ser achado

Lisboa, 28 de Abril de 2003

14/07/2010

Não me esqueço de ti ...


Não me esqueço de ti. Tanto tempo passou
e eu aqui esperando em silêncio.
Não me esqueço de todos os que me desejaram
e não pressenti.
Esquecer o que não se conheceu não é normal
normal é esquecer o que se conheceu e nos faz sofrer.

Deixei passar o tempo? Não foi esquecimento
foi falta de lembrança.
Pode ser essa a minha esperança.
Palavra maldita para os poetas.
Pasolini transformou-a numa palavra ausente
mas a esperança ainda espreita por uma frincha aberta no presente.

Vivo das vozes que me ouvem
mesmo quando duvido que me oiçam.
E deixo no vazio o apelo de palavras que agonizam.
Claro que não me serve de consolo o silêncio eterno.
Pode ser que me responda uma voz qualquer
mesmo que não seja aquela por cuja resposta desespero.

E assim passo o dia-a-dia na procura de quem me responda,
uma resposta audível, brutal ou segredada,
tanto dá mas que me faça companhia.
Para que se possa tornar ausente preciso que se apresente
e que vozes livres clamem:
ausente, ausente, ausente…

Por fim ficarei silente no sítio de onde nunca parti
mas não me esqueço de ti.

Lisboa, 8 de Setembro de 2003

10/07/2010

ESPERO


O cais está deserto. Após uma noite agitada as águas do rio batidas pelo
vento
salpicam o cenário inventado para o difícil encontro a sós que não foi
mais
que o pretexto para te ver fugazmente e sentir o sorriso que a teus lábios
aflora
quando me olhas desde o primeiro dia que me viste e neles notei o leve
entreabrir
da tua pele ao contacto do meu desejo e te toquei incendiando o meu
olhar
ao encontro do teu olhar e nele vi a réplica do beijo que  nunca se 
consumou.
Mais nada do que um adeus? Ou assim como um jogo de adiar a espera
do dia
em que num lugar mágico como no Amarcord de Felini nos abracemos e
nossos
corpos se toquem e eu grite, não me interessa o silêncio que vai tingir de
rubor
o teu rosto, sentindo tua língua a falar na minha boca no momento
fugaz do beijo
que se toma de um trago como o gin ou o fumo das cigarrilhas que
o vento fumou.

Espero
sem desesperar de te sentir desejar-me ou ao menos desejares que eu te
deseje
assim intensamente como quando respondes aos meus apelos e eu me
encho
de esperança ou quando decides esquecer um encontro por não te
apetecer sorrir
com o sorriso de te fazeres sentir agradável, insinuante e virgem como
eu gosto
de me sentir desejado, em eterno falso climax, beijando-te a face no
beijo da despedida
os meus lábios sorvendo o sabor doce de ti através da tua pele
maquilhada arrependido
de não ter jogado no teu corpo o jogo do sexo que tu adias para tornar
mais intensa
a consumação do meu desejo que por gozo invento e tu subtilmente
sempre desejaste.

Lisboa, 5 de Setembro de 2003

06/07/2010

DIFÍCIL PARTILHA


Dói às vezes partilhar o comum dos gestos
da vida e omitir a sua parte nova e agreste,
julgando no dia claro deste Janeiro quente
e seco os passos de viver assim docemente

Crispa a pele suster no corpo o vento em riste
aceitar o cansaço do ventre a olhar o já visto,
receando de nós a própria dor do tempo carregado
para dela nos desfazermos amando o corpo amado

Mesmo que surja uma palavra a mais ou a menos
temo o gemido que leio na memória omissa,
que cor têm os cabelos ondeando no beiral
do tempo quando se abrem os braços e se grita?

Soltemos o nosso passo à desfilada
prendamos o braço ao braço que abraçamos,
experimentemos ouvir as horas na torre
e o esvoaçar da cegonha que observamos

Num golpe de olhar ouçamos os pássaros no berço
da noite e sigamos a linha quebrada do remo fendendo
a ria e os pontos mortiços das luzes no alto da colina

A respiração sustem-se no momento do passo dado
e já nada nos segue a não ser o nosso próprio riso
eco repetido no chão duro e cego da verdade

Lisboa, 21 de Janeiro de 1981

(Transcrição da versão original manuscrita no “livro de recados”)

28/06/2010

SULSCRITO


SAIU A REVISTA SULSCRITO COM EXELENTE QUALIDADE QUER PELO CONTEUDO, QUER PELO GRAFISMO. MAIS TRADE REPRODUZIREI ALGUNS DOS TRABALHOS NELA PUBLICADOS. HOJE ESTOU COM PROBLEMAS DE EDIÇÃO ... Links no http://www.absorto.blogspot.com/

26/06/2010

diálogo a sós


ainda e sempre a lembrança
do tempo dos afectos juvenis

a busca da fé e da esperança
até na hora triste de abdicar

imagem pura do lugar vazio
usurpado pelo corpo alheio

o diálogo a sós tantas vezes
maldito imposto pelo medo

solidão perversa de palavras
omitidas e silêncios severos

a lembrança do músculo teso
na esfinge do herói sonhado

mortandade de legiões crentes
tomado o destino em suas mãos

a ilusão nos rostos iluminados
cheirando em fila flores de paz

outra vez o anúncio antecipado
da tirania que a liberdade procria

e o homem na sua indiferença
cede ao medo que se anuncia

no ar ecoa a lembrança sofrida
do diálogo a sós com a morte

Lisboa, 8 de Junho de 2003

24/06/2010

CÓDIGO DA ESTRADA (um poema antigo)


Pamela Creevey

é preciso saber de cor
as coisas banais
que se fazem todo o ano

lavar os dentes, comer
ouvir rádio,
beber a bica, sensações

fumar um charuto, abrir a porta
a alguém que tocou
de propósito, por engano

ensaiar cábulas na mão esquerda
inversões, velocidades
e os limites das dimensões

em Londres as autoridades
não cedem, o pirata do ar
parece que é tanzaniano

o músculo retesa-se ao arrancar
é quase meia noite,
agarrem-me que vou voar

Lisboa, Dezembro de 1981

22/06/2010

AS TUAS MÃOS


Pamela Creevey

não quero deixar
as tuas mãos sem o meu
corpo

elas o conhecem
melhor que quaisquer
outras

quais mãos amantes
que o penetram fundo
e o saciam

as tuas mãos um dia virão
à minha presença
a sós

para me violarem a alma
mais além
do meu corpo

ciciando doces palavras
de desejo em voo
nocturno

carícia final
que me faz sonhar
no gesto que me possua

Lisboa, 3 de Setembro de 2003



19/06/2010

A BEM DA NAÇÃO


Fotografia de Hélder Gonçalves

Posso sair por uns instantes
daquele que me dou a conhecer
e todos reconhecem pela imagem de um homem
honesto perfilado no pedestal da probidade
reconhecidamente probo - bela palavra probo -
ou seja incapacitado por sua natureza de cometer
qualquer imprudência inqualificável
que o leve a ser apontado na esquina
da rua no largo no bairro na baixa
da sua cidade como aquele que é igual
a todos os outros
a todos os demais
menores denominadores comuns sociais
incendiários stritu sensu
ou incendiários de prazeres imorais.

São todos iguais
disse na televisão: é verdade.

Posso sair por uns instantes
desta incomoda posição de parecer normal
e de cumprir com a minha obrigação?
Deixem-me assumir uma pose de Estado
e afiambrar um discurso que me devolverá à liberdade
de ser suspeito antes de ser condenado.

Deixem-me ser eu próprio a confessar os factos
as faltas os erros os desvios e que mais...
não se macem em pôr notícias nos jornais
eu próprio me reconheço autor confesso
do descalabro da coisa pública.

Um horror a coisa pública
vista daquele ângulo da casa de banho
agachada em postura declaradamente impudica.

Gente sem preparo nem fato assertoado
antecedida e procedida por igual
de uma ineficácia confrangedora
diz a directoria do DN no editorial.

Que mais se espera do que ser removida
a coisa publica
com o devido asseio
e dentro da mais estrita legalidade.

Descansem todos os honestos coitados
quantos cuidam de não trair
sua boa reputação

podeis continuar a trabalhar,

A Bem da Nação

Lisboa, Agosto de 2003

[A propósito da morte de José Saramago uma série de poemas de 2003 na sua maioria inéditos.]





15/06/2010

QUANDO A NOITE SE PÕE EM SILÊNCIO


Gaylen Morgan

Quando a noite se põe em silêncio
Depuram-se todos os sons íntimos
E oiço ao longe a voz da esperança
Entoar cânticos nos rostos antigos

s/data

13/06/2010

Sem título


Fotografia de Hélder Gonçalves

estamos todos nós
cheios de vozes
que a mais das vezes
mal cabem na nossa voz

13/06/2010

11/06/2010

FAZ TEMPO


Fotografia de Hélder Gonçalves

Faz tempo que não assoma ao meu coração
O calor de um calafrio um estremecimento
Um arrepio a picada íntima, luxúria, alento
Salto vital retirada do labirinto da maldição,

Faz tempo, muito tempo, não sei dizer quão
Quanto e qual mesmo nada acontece de real
Nem uma vaga palpitação no membro, o tal
Nada apetece do que me apetece penetração,

Faz tempo que o tempo se esvai a caminhar
Se escoa, se desalinha e enfim me entristece
Se o olho direito de frente ele desvia o olhar

E vira espelho e no reflexo me vejo definhar
Sem saber afagar o corpo que se me oferece
Faz tempo que o desejo paira suspenso no ar

Lisboa, 12 de Janeiro de 2004

05/06/2010

O que desejava dizer-te


O que desejava dizer-te não pode ser escrito
E a distância de todos os tempos nos separa.
O que nos resta? Respirar o ar que é o nosso
Próprio ar, ardendo em nossas bocas únicas,
Sequiosas de ser desfrutadas, prazer da luta
Pela vida contra a morte dos nossos corpos
Unidos afinal pela distância que nos separa.

3/6/2010

03/06/2010

Lemos muita coisa e esquecemos


Justine Reyes

Lemos muita coisa e esquecemos
Do que lemos quase tudo menos
O que fica do que lemos gravado
Em algum lugar que não sabemos
Onde situar em nosso corpo qual
Última morada secreta e fechada
Que cria a memória do que lemos

3/6/2010

28/05/2010

Novembro


Novembro meu coração voa baixo agora
O cansaço espera o regresso impossível
Ao espaço sideral onde não se joga nada
As emoções mortas flutuam em sonhos
Ao canto mais fundo de mim já recolhido
À saudade de um olhar cúmplice, desejo
Perdido na face rubra pedindo um beijo.

10/11/2008

25/05/2010

DOEM-ME OS OLHOS DE OLHAR


Doem-me os olhos de olhar
Para dentro
Do tempo que me possui
Escorrendo
Ao longo do meu passado
Sempre
Presente sempre afastado

3/11/2008

22/05/2010

Em busca

































Em busca da fonte do meu cansaço
Encontro o lugar de velhos encontros
O desejo de saciar a sede de viver
Encontro os braços que me enlaçam
Com o vigor do último abraço
O primeiro dia de todos os dias
No corpo tornado uma concha
Apertado no meu com um laço
Que me desaperta a sede e bebo
O liquido com que o desfaço

9/9/2008

20/05/2010

POEMA DE ONTEM


Albert Lemoine

O tamanho de uma palavra perdida
No tempo ecoa por entre imagens
Coloridas e cheiros agridoces mãos
Estendidas ao sol carícias e medos
Desenhados na curva do olhar baço


O tamanho do silêncio erguido ali
Caminhando a meu lado atormenta
O sol que ilumina a minha alma
Enchendo de penumbra o espaço
Livre que procuro entre paredes.

1/7/2008

16/05/2010

SEM TÍTULO


Fotografia de Hélder Gonçalves

Construir a
partir do nada
o vazio que se possui
às portas do desejo

Ouvir o coração ao longe
outro que me veja
sinto-o mas não revelo
o lábio húmido que me beija

s/data – 2007

10/05/2010

A CARNE DA TERRA JAZ POR ENTRE OS DESTROÇOS


A carne da terra jaz por entre os destroços
De que reconheço o lugar e apodrece,
Conheço o lugar onde está depositada
Por entre ervas e flores que renascem,
A carne da minha carne que apodrece
Por entre a natureza que renasce sem nada,
Pois já não é olhada pelos mesmos olhos
Que a olhavam como se olha o que apetece,
A carne morreu e com ela a beleza do lugar
Onde aprendi as cores verdadeiras da natureza

[3/3/2008]

05/05/2010

LIBERDADE


Nos meus cadernos de escola

no banco dela e nas árvores

e na areia e na neve

escrevo o teu nome


Em todas as folhas lidas

nas folhas todas em branco

pedra sangue papel cinza

escrevo o teu nome


Nas imagens todas de ouro

e nas armas dos guerreiros

nas coroas dos monarcas

escrevo o teu nome


Nas selvas e nos desertos

nos ninhos e nas giestas

no eco da minha infância

escrevo o teu nome


Nas maravilhas das noites

no pão branco das manhãs

nas estações namoradas

escrevo o teu nome


Nos meus farrapos de azul

no charco sol bolorento

no lago da lua viva

escrevo o teu nome


Nos campos e no horizonte

nas asas dos passarinhos

e no moinho das sombras

escrevo o teu nome


No bafejar das auroras

no oceano dos navios

e na montanha demente

escrevo o teu nome


Na espuma fina das nuvens

no suor do temporal

na chuva espessa apagada

escrevo o teu nome


Nas formas mais cintilantes

nos sinos todos das cores

na verdade do que é físico

escrevo o teu nome


Nos caminhos despertados

nas estradas desdobradas

nas praças que se transbordam

escrevo o teu nome


No candeeiro que se acende

no candeeiro que se apaga

nas minhas casas bem juntas

escrevo o teu nome


No fruto cortado em dois

do meu espelho e do meu quarto

na cama concha vazia

escrevo o teu nome


No meu cão guloso e terno

nas suas orelhas tesas

na sua pata desastrada

escrevo o teu nome


No trampolim desta porta

nos objectos familiares

na onda do lume bento

escrevo o teu nome


Na carne toda rendida

na fronte dos meus amigos

em cada mão que se estende

escrevo o teu nome


Na vidraça das surpresas

nos lábios todos atentos

muito acima do silêncio

escrevo o teu nome


Nos refúgios destruídos

nos meus faróis arruinados

nas paredes do meu tédio

escrevo o teu nome


Na ausência sem desejos

na desnuda solidão

nos degraus mesmos da morte

escrevo o teu nome


Na saúde rediviva

aos riscos desaparecidos

no esperar sem saudade

escrevo o teu nome


Pelo poder duma palavra

recomeço a minha vida

nasci para conhecer-te

nomear-te

liberdade.

paul eluard

Tradução de Jorge de Sena

30/04/2010

POEMA AMOROSO COM VOLTA











albert lemoine

Como nos vemos nós reflectidos

pelos olhos do outro à distância?

Desejados? Mais do que o amor

deseja ? Libertos? Presos? Fixos

ao olhar que nos olha, desejados

que seja por um breve esgar que

se antevê arder no ser além-mar?

Que é desejar? O rubor na face?

O calor que me invade as curvas?

Corpo sentado ao alto do degrau

duro? A ilusão de rolar os dedos

pelos bicos dos seios? E senti-los

inchar ao toque subtil ? Gemidos

grita ciciada? O lóbulo ardendo?

A palavra feita gesto indecente?

O que é afinal desejar? O prazer

de adivinhar que o outro deseja?

20 Fevereiro de 2009

25/04/2010

A TERRA QUENTE


Fotografia de Hélder Gonçalves

A terra quente revolvida
Em memórias que entrego
Ao futuro na luz reflectida
Em água correndo no rego


A lua redonda um espanto
No céu inteiro e estrelado
Meu corpo em fino manto
Envolto só no chão deitado

12/04/2010

17/04/2010

METAMORFOSE


Ao pé dos cardos sobre a areia fina
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas,
quantos luares nas águas ou nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mas respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
da confiada ausência em que dormia?
Mas dormiria? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos... Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto?
Ou não dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
que quase lhe tocava do areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando -
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.

Jorge de Sena

12/04/2010

ALEGRIA


Cori Chandler-Pepelnjak


Novidade é uma rapariga solta
que passa,
me afaga,
redime
quando nela fito
os meus olhos piscos
e rio.

Ruy Cinatti

In Tempo na Cidade, Presença

06/04/2010

SINGULARIDADE


Não sou mais puro só porque versejo
e Deus me quis contrariado.
O que me cerca, quase desejo,
afirma-se no tempo e na verdade.


O que me cerca tem um nome vão.
Uns dizem mundo, outros futuro.
Mundo futuro é binómio-cão.
Mordendo, ladra, os ossos me une.


O que me cerca suspende a razão
em ambos os pratos da balança.
Fica pairando, tremendo no ar
ave da esperança na distância.


Sim! – ninguém ouse violentar-me.
Sou o que fui, serei: - talvez milagre!

Ruy Cinatti

In “archeologia ad usum animae”, Presença

04/04/2010


como una obra de arte ves la página,

te miras, la examinas dos, tres veces,

buscas el parecido, pero encuentras

a alguien más.

¿Te he visto alguna vez usar sombrero?

Nunca me lo dijiste, es cierto. O sí.

Digo que invento. Vuelves a la página,

coges la luz,

la observas más, enciendes la cerilla.

Tramposo, falso, cabrón soy. La rompes

en dos, en cuatro, en ocho, en dieciséis,

y al fuego va.

(Versión propiedad de Hartz)

SIMON ARMITAGE

29/03/2010

MADRIGAL EXCÊNTRICO






















(J.)

Daqui, destas longes terras,
Para que o Estro se encarne,
A ti, que no corpo encerras
As harmonias da Carne,

Na asa dos vendavais
Envio um beijo tão longo,
Que as bocas, duas vogais,
Possam formar um ditongo!

António Feijó

Líricas e Bucólicas - 1884
Poesias Completas – Caixotim

20/03/2010

Vi meu irmão passando a ferro um pijama de flanela amarelo às listas


Eu comemoro, tu comemoras

Comemoramos o dia, que dia?
Mundial da poesia, dia oficial?
21 Março menos mal, sempre
Preferia que o dia regressasse
À poesia o silêncio entre linha
Ressoando no espaço sonhos
Imagens e traços nas clareiras
Com meus irmãos, era um só
Singular, tal somente a poesia

20 de Março 2010

17/03/2010

PENSO NO POEMA


Pamela Creevey


Penso no poema não nasce

na hora faz-me esperar em

lugares longínquos implora

que o deixe eu insisto além

do vazio em volta eu existo

na vida que ganha e resiste

16/3/2010

10/03/2010

O MAIS CERTO


Fotografia de Hélder Gonçalves

O mais certo é um dia tudo acabar
mesmo a memória de outros tempos,
esquecem-se os rostos que fitámos
desobedecem-nos os conhecimentos.

O que é mais tarde? É o momento
em que o presente se torna passado

25/02/2010

02/03/2010

A perfeição do nada


Fotografia de Hélder Gonçalves

Um poeta morre e os jornais choram,
soluçam os amigos do homem e aquela
que o amou e as que não o esqueceram.
Alcançou enfim a eternidade, ele. Tanto
lhe faz já este ano ou o próximo, os vinte
séculos da nossa civilização ou o fim dela
e de nós todos. Agora ele senta-se à beira
das florestas irreais do sonho, perto dos
lagos. O conceito de tempo é-lhe inacessível,
já não limita a sua ideia do real. Deixou-nos
as palavras arrumadas nos livros, trabalho
ou prazer apurados. Contou-nos episódios
da sua experiência, mesmo quando nada
tinham a ver com a sua biografia real. Não
há nada mais irrisório do que aspirar a
escrever um poema sobre o poeta
que acaba de morrer. O tempo, só ele,
o ressuscitará, antes de deixá-lo de novo
esquecido na poeira dos séculos. Inexistente
o que um dia existiu. De que serve os
outros falarem de nós? Viver e construir
a nossa morte com sabedoria. Só isso
conta. Será verdade que as palavras
deixaram de cumprir o seu dever? Pode
não ser. No mundo que o poeta organizou
pedaços de si foram-nos legados como aviso
e consolação. Agora, depois dos últimos
dias de sofrimento, o poeta descansa enfim
em paz, longe do desejo e do remorso.
Atingiu a perfeição insensível do nada.

João Camilo, in A Ambição Sublime, Fenda

25/02/2010

UM POEMA

Tom Chambers

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


Miguel Torga, Diário XIII

21/02/2010


Uma das poucas aguarelas feitas em formato maior 19cmx27cm - a entrada do Chateau Comtal de Carcassonne. Foi desenhada no local, tomei nota das cores no papel e nos olhos e logo que cheguei a casa acabei-a. [16 de Junho de 2008]

passeiam-se os passos nas pedras
falantes
cala-se a viajante como um
peregrino
o eco sibila-lhe labirintos


difícil aprendizagem!

Maria Helena Faria Monteiro in CALIGRAFIA DE TRAÇOS E PALAVRAS

19/02/2010

Uma vida

RIKKI KASSO

Uma vida assim inteira outra
face do medo olhar de frente
o outro lado como se fora sol
derramado em corpo amante
rente ao chão de onde nasce
a flor da semente fecundada.

Lisboa 18/02/2010

18/02/2010

CAMINHANTE

Cori Chandler-Pepelnjak

Procuro-te sem te procurar, perdendo-me no tempo
Fugitiva essa pessoa que possuis e que sinto
Que sou eu, senão caminhante que te encontra no imprevisto
Vejo e revejo cada saudade que permanece
E penso, e reflicto…
Encontro-te sem te procurar e perco-me no tempo

S.P.

15/02/2010

POEMA COM DESEJO DENTRO


Eva Herzigova par Vincent Peters

Mordes a maçã estaladiça os dentes cravados
Nela como se fosse a minha carne em chamas
Teu corpo roçando meus lábios abandonados
A teu desejo, ele sorvido devagar se me amas
Não sei, o que sei é o mar de água que molha
A curva de meu corpo dobrado a tuas carícias
Um ai que se solta do alto de ti que me olhas
Com uma nuvem no olhar pleno de primícias.

Lisboa, Fevereiro de 2010

12/02/2010

AO LONGE

RIKKI KASSO

Ao longe um rosto emoldurado de sol
Raiando na madrugada entre silêncios
O tempo amadurece no meu corpo só
Na praça deserta povoada de palavras

12/02/2010

07/02/2010

ARTE POÉTICA III


A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Sousa-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.

Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. E apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.

E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Esquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.

A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.

O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele está a contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.

Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o Padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.

E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão reunidos por uma fé e por uma esperança *.


*(Texto lido em 11 de Julho de 1964 no almoço de homenagem promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a Livro Sexto).



02/02/2010


































Imagem daqui

Ao longe o rosto de perfil antigo
Sem mácula nem aresta cortante
A lonjura descolora o acre da cor
Que tingia a pele do corpo, antes

02/02/2010

28/01/2010

O MEDO





















Thomas Michael Alleman

Emergir do medo ancestral que nos invade
Que nos habita como se fosse um hóspede
Indesejado, uma outra pele sensível oculta
No fundo de nossos sonhos mais elevados
Indecifráveis, o medo contra o qual se luta.

28/01/2010


24/01/2010

SOBRE A DOR


Fighting Fish Studio

Que escrita fica
Do
Espaço
E
Tempo
Da dor
Não dita?

Eduardo Aleixo, in As palavras são de água


21/01/2010

CENTENARIO DE ANTÓNIO PEDRO


Declaró Vasco Graça Moura a la revista Ler, en marzo de 2009, que no gustaba del Libro del desasosiego y que en general Pessoa, pese a su importancia, había ido decreciendo entre las preferencias de lectura de los portugueses.

Ha concluido entonces la "era pessoana"? La pregunta es lícita si se atiende a tales declaraciones. Pero lo cierto es que la industria cultural portuguesa en torno a la obra de Fernando Pessoa sigue imparable. Y aunque las ediciones de sus versos y prosas se acumulen en los anaqueles de las librerías, sea porque el ambiente se ha sobreturado de Pessoa, sea porque la crisis económica impide al público adquirir otros objetos que no sean los de necesidad apremiante, el poeta sigue vivo en las calles de Lisboa.

Un gran cartel se le muestra al transeúnte en la Plaza da Trindade con una cita de sus palabras. Entre las novedades editoriales, los libreros ofrecen la antología Almas e estrelas, que es en realidad selección editada en los años cincuenta y caída en el olvido, y que incluye el ya conocido cuento «O Banqueiro Anarquista»

Estos hechos y algún otro, como la noticia, hace más o menos año y medio, de que desde Harvard, con la anuencia del gobierno portugués, se procedería a iniciar la edición crítica de las obras completas de Fernando Pessoa (basada, se entiende, en los 27.000 manuscritos conservados e inventariados), induce a creer que la "era pessoana" no termina, que continúa, así en el extranjero, donde se le edita, traduce, estudia y lee casi con la misma avidez que en las últimas décadas del siglo XX.

No obstante, los sucesos de estos últimos años parecería que dieran la razón a Graça Moura. Mientras que Saramago absorbe la atención de los lectores foráneos, que Lobo Antunes, entre los de lengua española, está en condiciones de disputarle, Miguel Sousa Tavares viene estremeciendo al público portugués con sus extensas novelas, auténticos best–sellers dentro de esa ola de literatura realista, a un tiempo comercial, que ha invadido al Occidente y que favoreció la divulgación de Eça de Queiroz en las pantallas (Manoel de Oliveira, por cierto, acaba de presentar en Londres una cinta que adapta el relato queiroziano «Singularidades de uma Rapariga Loura»), y la reedición de sus libros.

Precisamente, tras la huella de Os Maias, la obra cumbre de Queiroz, escribirían sendos relatos siete autores portugueses en un libro, Eça Agora, editado en 2007. Pero un acontecimiento más, aparte de de la tendencia de "crítica de costumbres" a la manera queiroziana que revela este libro, podría parecer que va a desalojar de la escena literaria a Fernando Pessoa.

Con la sesión evocadora de la figura y la obra de Jorge de Sena en el teatro lisboeta de San Carlos, en julio de 2008, se dio la posibilidad del traslado de sus restos mortales a Portugal. Del envío de lo que suele llamarse el espólio de su obra (manuscritos, textos mecanografiados o inéditos, cartas, etc.) había tratado la Fundación Calouste Gulbenkian y durante estos últimos años la viuda de Sena aceptó en que se transfiriera el material ya recibido a la Biblioteca Nacional del modo en que oficialmente se había acordado. De ahí que a mediados de este 2009 en dicha biblioteca se abriera la exposición de algunos objetos integrantes de dicho espólio.

Entre tanto se concretaron los preparativos para el traslado de sus restos. En un principio se previó la fecha del 10 de septiembre, día en que se celebraría la ceremonia de homenaje en la Basílica da Estrela antes de llevar el féretro al Cementerio dos Prazeres. Pero el día 8 se comunicó oficiosamente que se había cambiado la fecha para el 11 de septiembre.

Decisión que, por las coincidencias, parece adquirir algo así como carácter de destino. Porque la fecha del 11 de septiembre es una fecha tristemente señalada, de todos sabida. En el Cementerio dos Prazeres los restos mortales de Jorge de Sena se deslizaron, en silencio, hacia el nicho que sellaría la misma lápida que los había guardado en el Cementerio do Calvario de Santa Bárbara (California) desde 1978. En silencio porque los ruidos de los otros acontecimientos pusieron en sordina el sepelio y homenaje que lo había precedido.

En primer lugar, el día de por sí se prestaba a que la atención pública estuviera embelesada en los recuerdos que los medios de comunicación, tanto nacionales como internacionales, suministraron de tan infausta fecha. Por otra parte, localmente, los análisis de los debates políticos, televisados la noche anterior, eclipsaron cualquier suceso que no fuera relativo al curso de las inminentes elecciones, por lo que los asuntos culturales pasaban a segundo plano. Ello explica cierta circunspección. Pese a que el diario portugués Público traía en esa fecha la noticia del traslado de los restos, con una entrevista a Fazenda de Lourenço en dos páginas.

En el Diário de Notícias, en el espacio correspondiente, se hacía ver que el Ministro de Cultura consideraba necesaria la reconciliación con aquellos escritores de lengua portuguesa que habían abandonado el país "por diversas razones", como era el caso de Gabriela Llansol o José Rodrigues Miguéis (cfr., referencia a Miguéis en Incidencias... [6]). Y, en efecto, durante su discurso en la Basílica da Estrela, el ministro reiteró la idea de la reconciliación a propósito de Sena. Digamos que su regreso constituía el cierre de una herida, abierta por un exilio voluntario en 1959 y que vendría a cicatrizar con el reposo de sus restos definitivamente ahora, cincuenta años después.

Definitivamente? En realidad, el Ministro de Cultura, ya en el Cementerio dos Prazeres, rectificaría al decir que no era necesaria la reconciliación. Porque Sena, escribiendo en portugués, había llevado consigo siempre a la patria, su patria había sido la lengua portuguesa, con lo cual se volvía a la frase famosa de Fernando Pessoa. Pero, en verso y en vida, Sena lo había dicho bien:

Yo mismo soy mi patria. La patria
de la que escribo es la lengua en que nací por azar
de las generaciones.

No parece incongruente este final, aunque plantee interrogantes y deje en barbecho a un poeta que confesó en otro verso de un primer libro de poemas: "Siempre me supo a destino mi vida".

Las circunstancias no le resultarán más propicias a António Pedro en el año de su centenario.

António Pedro da Costa, poeta originario de Cabo Verde, había nacido el 9 de diciembre de 1909 y murió el 17 de agosto de 1966. Además de poeta, fue novelista, dramaturgo y escenógrafo, crítico de arte, pintor, escultor, ceramista, editor, promotor cultural... (demasiadas facetas para una sola persona, según se juzga en el medio cultural portugués que, al igual que en España, se estima que sólo debe cumplirse un papel y una función).

Si a esa reprobada versatilidad se añade que la larga sombra dominadora de Mário Cesariny se extiende por la historia del movimiento surrealista en Portugal, tenemos que el nombre de António Pedro se difumina en el relato de los sucesos. Aun cuando figurase desde los inicios en que dicho movimiento adquiría el cariz de facción organizada en 1947, junto al mismo Cesariny (entonces Cesariny de Vasconcelos), José–Augusto França, Alexandre O'Neill y otros.

Peor aún si tomamos en cuenta que su novela Apenas uma narrativa (Sólo una narrativa) se publicó en 1942, por lo que cronológicamente debiera conceptuársele como el primer autor de una obra surrealista y, por tanto, situarlo en el centro de una polémica que envuelve a Cesariny, a França y a Sena mismo —que "nunca se deseó ni pretendió precursor de cosa alguna", etc.—, entre otros.

Pero ante las opiniones divergentes, aunque se le reconoce que contribuyó a transformar la novela portuguesa (Fernando Guimarães) y aun se afirma que Apenas uma narrativa es "la primera señal del espíritu surrealista en Portugal" (Nuno Júdice), para los efectos se dictamina que es precursor o ‘pionero’ (Gaspar Simões), o se le sitúa en la "protohistoria surrealista" (P.E. Cuadrado), lo que viene a ser igual, porque se le hace depender de la historia de los surrealistas triunfantes más o menos contada o defendida por ellos mismos.

La verdad de todo, y comprobable, es que António Pedro, iniciado literariamente en Coimbra con la edición de su primer libro de poemas en 1926, colabora hacia 1930 en la revista Presença unos años después. En 1931 y 1932 publica otros dos libros de poemas, y en 1934 y 1935 se une a la vanguardia en París y firma el Manifiesto Dimensionista junto a Kandinsky, Duchamp y Picabia.

Durante la segunda guerra mundial trabaja como locutor en la BBC, en Londres, y participa en las actividades del grupo surrealista inglés. A su regreso a Portugal promueve el surrealismo en compañia de los otros integrantes del grupo de Lisboa que, tras los preparativos de 1947, consolidan sus actividades al año siguiente. Director de la agrupación El Patio de las Comedias, António Pedro fundó el Teatro Exprimental de Oporto en 1953, que dirigió hasta 1961.

Pese a lo enumerado, y aun siendo autor de una docena de publicaciones poéticas, sólo mereció por parte del crítico influyente de la época, João Gaspar Simões, menciones desdeñosas. Aunque, ciertamente, confirmase que António Pedro era "el más completo ‘hombre de teatro’ de las artes y las letras portuguesas" que se había dado en la primera mitad del siglo XX.

Las antologías prolongan esa desatención. De modo excepcional, Jorge de Sena lo incluiría con honores en Líricas Portuguesas (3a serie, 1958). Pero, por ejemplo, la muy instructiva de Perfecto E. Cuadrado, si bien ofrece una valiosa semblanza de su figura en el estudio introductorio, no lo incluye en la selección y sólo lo consigna en la bibliografía.

En el número 23 de la revista canaria La Página, dedicado a la poesía portuguesa del siglo XX, se halla traducida la semblanza mencionada en el artículo en que Cuadrado expone de modo más breve la historia del surrealismo en Portugal. Sólo añade a continuación: "Mário Cesariny ha negado siempre que António Pedro sea surrealista: sin serlo propia o profundamente, no puede negarse, sin embargo, que su figura y su obra deben vincularse, al menos en una determinada etapa, a la aventura surrealista portuguesa".

Es obvio que este juicio sujeta la valoración de Pedro al dictamen de Cesariny y sirve de justificativo a su exclusión en la cuarta parte de la antología aparecida en el siguiente número de la La Página. Es de notar, por cierto, que Alexandre O'Neill, como Pedro uno de los fundadores del Grupo Surrealista de Lisboa, sí figura en la antología. Pero el poema escogido, el famoso «Um Adeus Português», no es surrealista y más bien representa la etapa en que O'Neill había dejado de serlo. Además, el mismo título de la antología («Cien años...») podría hacer creer que los versos de António Pedro se incluyen en cualquier otra parte de ella. Ausencia completa.

Triste y curioso destino este otro, de un poeta que, autoconsciente, decía de sí: "No tiene lo que se llama un modo de vida y corre siempre entusiásticamente hacia donde la vida lo llama".

(Véase la versión al castellano de un soneto suyo en Poemas.)

[Reprodução, quase completa, sem os links do original, de um trabalho publicado na Revista Digital HARTZ]