20/12/2007

UMA LINHA

Posted by PicasaLaurie Tumer

Uma linha só uma linha
Uma linha idealizada para ser
Lida na fúria da pressa uma linha
Só uma linha é o ideal sem mais nada
Uma linha desde que seja só minha exacta
Precisa na linha das minhas linhas uma linha só
Uma linha é uma casa de uma assoalhada uma linha
Só uma linha serve para respirar uma ideia inspirar uma linha
Seja curva ou recta mesmo que traçada na testa é a linha que me resta]

Lisboa, 5 de Janeiro de 2006

18/12/2007

EM DES-LOUVOR DA VELHICE

Posted by PicasaJon Edwards

Para viver-se longamente ou se é de ferro,
ou vendo um velho penso: quanta gente
assassinou, envenenou, pisou ou destruiu?
Quantas vidas desfeitas há nessa memória
que já se esquece calma pela paz da morte?
Bandidos os humanos, quem não sobrevive
à custa de outras vidas? Quanto sangue,
quanta bondade, quanto de inocência
não devorou feroz e com rosnidos
que são agora as rugas venerandas
e aquele encanto de uma pele trilhada
por azuis róseas pequeninas veias?
Mesmo essa pele quantas vezes não
foi que a largou esfolada no entre pedras,
como a serpente que se despe e passa?
Ou se é de ferro. Ou criminoso antigo
que a si se perdoou do mal que fez
e aos outros perdoou que tenham sido as vítimas.

18/12/1971

Jorge de Sena.

[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (28).]

13/12/2007

Sena, Jorge

Posted by PicasaFotografia daqui

Mais longe, o que é mais longe?
Ficar no lugar, que é ficar perto?

Sena, Jorge, o homem de letras
esse mesmo que a marinha expulsou,
pai de muitos filhos, emigrante, poeta
quase eterno, amante de várias
Pátrias, morreu longe da sua,
mas nunca a esqueceu, antes quis
ser amado por ela
e ela, ingrata, o renegou.

27/7/2007
.
[“Vinte Poemas de Cuba” (20). Escritos a lápis nas páginas do livro “Poesia III”, de Jorge de Sena, nos dias de uma visita a Cuba.]

12/12/2007

VITA BREVIS

Posted by PicasaAntonio Gesmundo

A vida é breve mas que a faz mais breve
não é morrer-se nem morrer quem foi
connosco nela espaço forma e tempo.
Que mais que a morte a humanidade encurta
e torna mais estreita a nossa vida.
Só brevemente e por um breve instante
seu corpo nos concede. E brevemente
é que pensar deseja que existimos.
Antes de mortos, antes de sozinhos
e apenas visitados de memórias,
já todos somos um jornal antigo
deitado fora sem sequer ser lido,
ou somos uma imagem desenhada
na borda do passeio em que se exibem
pisando-a com os pés que desenham
seus mesmos rostos que outros pés já pisam.
A vida é breve, breve, mas mais breve
quanto a quer breve a estupidez humana
fiel ao tempo ainda em que de espaço
o tempo se fazia e o pouco espaço
na terra imensa a todos não chegava.

5/1/1971

Jorge de Sena.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (27).]

06/12/2007

Posted by PicasaBarbara Morgan

Compreendo os seus cuidados.
O que lhes alentava a vida era
eu, talvez pouco, talvez muito,
um mundo no qual o filho que
lhes sobrava do quotidiano não
sonhava a vida na mesma cor
que conheciam, sobreviventes
das injustiças do mundo, sinto
o meu futuro vazio pleno deles

27/7/2007

[“Vinte Poemas de Cuba” (19). Escritos a lápis nas páginas do livro “Poesia III”, de Jorge de Sena, nos dias de uma visita a Cuba.]

05/12/2007

AS QUATRO ESTAÇÕES ERAM CINCO

Posted by PicasaTom Chambers

O verão passa e o estio se anuncia
que o outono se há-de ser e logo inverno
de que virá nascida a primavera.
Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era.

8/7/1970

Jorge de Sena.

[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (26).]

01/12/2007

A FALA (I)


(…)

Não te posso dizer: “vamos” – senão por aqui.
A infância dentro da luz dum musgo que os bichos
comem com a sua boca.
Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem.
Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,
a alegria debaixo das palavras.

(…)

“Toda Poesia” - “A Fala” in “A Luta Corporal” (1950-1953)
José Olympio – Editora – Rio de Janeiro

[Excertos da leitura de “Toda Poesia”, de Ferreira Gullar, (1) enquanto escrevo, a lápis, nas suas páginas uma série de poemas alguns dos quais publicarei conforme o tempo e a disposição.]