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30/05/2012
03/11/2010
17/04/2010
METAMORFOSE

Ao pé dos cardos sobre a areia fina
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas,
quantos luares nas águas ou nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mas respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
da confiada ausência em que dormia?
Mas dormiria? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos... Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto?
Ou não dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
que quase lhe tocava do areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando -
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.
Jorge de Sena
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas,
quantos luares nas águas ou nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mas respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
da confiada ausência em que dormia?
Mas dormiria? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos... Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto?
Ou não dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
que quase lhe tocava do areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando -
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.
Jorge de Sena
02/12/2009
TEIXEIRA DE PASCOAIS E A POESIA EM JORGE DE SENA

Teixeira de Pascoais foi, para mim, muito menos e muito mais do que um mestre. Devo-lhe o pior que me podia ter acontecido – e do melhor que a vida me dá. Com efeito a leitura, no limiar da adolescência, da sua Terra Proibida – e, mais ainda talvez, a impressiva descoberta, por um poema desse livro, de que havíamos nascido ambos no mesmo dia, o Dia de Finados – é que é responsável pelo facto de eu ter principiado a escrever poesia. (…)
Lisboa, 19 de Dezembro de 1952
Jorge de Sena - Excerto In NÚMERO DEDICADO A TEIXEIRA DE PASCOAIS – Cadernos de Poesia, III Série* Lisboa * 1953 * Fasc.14
Lisboa, 19 de Dezembro de 1952
Jorge de Sena - Excerto In NÚMERO DEDICADO A TEIXEIRA DE PASCOAIS – Cadernos de Poesia, III Série* Lisboa * 1953 * Fasc.14
17/09/2009
JORGE DE SENA
Assisti, no passado dia 11 de Setembro à homenagem prestada a Jorge de Sena. Foi comovente e fez-se justiça. Só hoje escrevo, de forma breve, acerca da cerimónia pois só hoje posso, sem quaisquer dúvidas, afirmar que, ao contrário do que possa parecer, esta homenagem, com todo o seu significado, simbólico e material, foi uma iniciativa do Ministro da Cultura, ou seja do governo, que obteve a aquiescência de Mécia de Sena e da restante família de Jorge de Sena. Era uma iniciativa, desde há muito reclamada, mas que nunca ninguém tinha alcançado concretizar. Compreendo, assim, o significado da presença, embora discreta, do 1º ministro na homenagem.
09/09/2009
JORGE DE SENA: CERIMÓNIA DE HOMENAGEM E TRASLADAÇÃO NA PRÓXIMA SEXTA FEIRA
«O Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, estará presente na cerimónia de homenagem a Jorge de Sena, em presença dos seus restos mortais, que se efectuará em Lisboa no dia 11 de Setembro de 2009, sexta-feira, pelas 10h00, na Basílica da Estrela, seguida de trasladação para o Cemitério dos Prazeres.A cerimónia, acompanhada de uma celebração musical executada pela soprano Raquel Alão e pelo organista Nuno Lopes, do Teatro Nacional de São Carlos, contará ainda com a declamação de um poema do autor, por Eunice Muñoz.Jorge de Sena será evocado através de breves intervenções de um representante da família, do ensaísta Eduardo Lourenço, do Ministro da Cultura e do ex-presidente da República, General Ramalho Eanes.»
Comunicado de imprensa do Ministério da Cultura
Comunicado de imprensa do Ministério da Cultura
07/09/2009
JORGE DE SENA REGRESSA PORTUGAL
Na próxima 5ª feira (10 de Setembro de 2009) Jorge de Sena regressa a Portugal. A cerimónia de homenagem, em presença dos seus restos mortais, decorre na Basílica da Estrela, a partir das 10 horas, a que se seguirá a trasladação para o Cemitério dos Prazeres.
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Este é um acontecimento do maior significado, de justiça e reconciliação, em benefício da cultura nacional honrando a memória de um seus maiores vultos.
Este é um acontecimento do maior significado, de justiça e reconciliação, em benefício da cultura nacional honrando a memória de um seus maiores vultos.
Tal acontecimento só é possível, certamente, pelo empenho de D. Mécia de Sena, e família, a que o governo correspondeu. Um dia lembrei-me, na circunstância da abertura de uma nova sede para a delegação do INATEL, no Porto, de prestar homenagem a Jorge de Sena. Foi assim que essa mesma sede se designa por “Casa de Jorge de Sena”.
A Dr.ª Manuela Espírito Santo, à época, vice-presidente da Direcção do INATEL, a cuja direcção eu presidia, acolheu a ideia e estabeleceu os contactos com D. Mécia de Sena que deu o seu consentimento. A partir dessa data estabeleceu-me uma corrente de contactos pessoais que mais me estimularam ao conhecimento da obra e da vida de Sena.
Na próxima quinta feira chegará ao fim, 31 após a morte física de Jorge de Sena, uma separação que não era justa. A terra portuguesa acolherá no seu seio um dos seus maiores. Fico feliz por isso.
10/07/2009
TORGA VISTO POR SENA (um episódio)
A propósito desta magnífica posta do Pedro Rolo Duarte ficou a bailar-me na memória uma leitura recente, muito interessante, e pouco simpática, na qual Jorge de Sena se refere a Torga. Pode ser lida nos “Diários” de Sena, no dia 24 de Fevereiro de 1954. Reza assim:
“Encontrei-me com o Guilherme Filipe, para ele me pagar a palestra de ontem. Conversámos um pouco com o Casais que depois saiu. Perguntei-lhe então pela mulher, que sei pior do juízo. Abriu-se então. A última crise começou nas vésperas da partida para o “Cruzeiro dos três continentes” (aquele cruzeiro em que certos excursionistas, segundo me contou o Bordalo, julgaram que as ruínas da Acrópole eram dos terramotos recentes … das ilhas gregas …). Numa crise de dinheiro o Guilherme vendeu uns quadros de que gostava muito, sem que ela, desgostosa por essa solução quando ele não tinha outra, dissesse uma palavra. Chega o Torga, o grande raiano dos arrabaldes de Vila Real de Trás-os-Montes, com um amigo. Também ia ao cruzeiro. E, com um gesto indicativo da memória aquilina que se “deve” supor que ele tem, pergunta: - Falta ali um quadro. Onde está aquele quadro de que eu gosto tanto? - Olhe, respondera o Filipe, precisei de dinheiro e vendi-o. – E por quanto? – Por 3 contos. – E a senhora consentiu? – perguntou o Torga à mulher do Filipe. E este, logo: - Não só consentiu, como não me disse ainda uma palavra a esse respeito. E o Torga, magnífico e magnânimo, abraçando o Filipe: - Ah que você ainda é mais desgraçado do que eu supunha. – E levantou-se para sair, depois de lamentar o mau agouro com que iniciara o “seu” cruzeiro e o não poder dar ele, em vez de ir na viagem, o dinheiro que o Filipe precisara … agora … - Então não janta? – perguntava triste. – Não, minha Senhora, não, que o que acontece aos meus amigos é como se me acontecesse a mim. – E durante a viagem fez sentir à senhora quanto era indigna esposa do pintor (coitado!) G. Filipe. Que grandecíssimo filho … ainda por cima sem sombra de delicadeza moral." (…)
07/05/2009
VIII CICLO DE MÚSICA E POESIA PORTUGUESA DO SÉC. XX - POESIA DE JORGE DE SENA -
Por ser um acontecimento raro no nosso panorama cultural divulgo o Programa da componente da Poesia de Jorge de Sena do “VIII Ciclo de Música e Poesia Portuguesa do Séc. XX – Poesia de Jorge de Sena - ”, organizado pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, a realizar nos dias 12, 14, 19 e 21 de Maio de 2009, no Palácio Fronteira:
12 de Maio (3ª feira)
21h30 - RECITAL DE POESIA DE JORGE DE SENA – POESIA E ARTES VISUAIS
Apresentação e comentários: Fernando J. B. Martinho
Leitura: Antónia Brandão, Fernando Mascarenhas e Maria Adelaide Hidalgo.
14 de Maio (5ª feira)
12 de Maio (3ª feira)
21h30 - RECITAL DE POESIA DE JORGE DE SENA – POESIA E ARTES VISUAIS
Apresentação e comentários: Fernando J. B. Martinho
Leitura: Antónia Brandão, Fernando Mascarenhas e Maria Adelaide Hidalgo.
14 de Maio (5ª feira)
21h30 - RECITAL DE POESIA DE JORGE DE SENA – ESCRITA POÉTICA E VISÃO DO MUNDO EM JORGE DE SENA
Apresentação e Comentários: Gastão Cruz
Leitura: José Manuel Mendes.
19 de Maio (3ª feira)
21h30 - RECITAL DE POESIA DE JORGE DE SENA – SENA, A POESIA E OS LUGARES
Apresentação e Comentários: Margarida Braga Neves
Leitura: Antónia Brandão, Fernando Mascarenhas, Maria Adelaide Hidalgo e Paulo Godinho.
21 de Maio (5ª feira)
21h30 - RECITAL DE POESIA DE JORGE DE SENA – POESIA POLÍTICA
Apresentação e Comentários: Gilda Santos
Leitura: Antónia Brandão, Fernando Mascarenhas, Maria Adelaide Hidalgo e Paulo Godinho.
- Recitais de Poesia - Entrada Livre
Local: Palácio Fronteira, Largo São Domingos de Benfica nº 1 - 1500-554 Lisboa.
Informações e inscrições: 217784599 ou fcfa-cultura@netcabo.pt.
Site: https://webmail.netcabo.pt/exchweb/bin/redir.asp?URL=http://www.fronteira-alorna.pt
06/04/2008
JORGE DE SENA - RELÂMPAGO
Alguns sublinhados da leitura da Revista Relâmpago – nº 21, dedicada a Jorge de Sena. Incidem sobre os dois primeiros ensaios nela presentes de autoria de Fernando Pinto do Amaral e de Gastão Cruz.
“Muitos dos melhores poemas de Jorge de Sena consistem precisamente em longas e dialécticas meditações sobre a passagem do tempo e os vestígios que deixa à superfície das coisas.”
“Mas o que a poesia de Sena consegue dizer-nos como nenhuma outra é, acima de tudo, o absurdo da morte, o seu escândalo especificamente humano quando comparado com os ciclos que regem a natureza, já que é a consciência da morte a negar aos homens a sua condição de seres naturais como os outros, a retirar-lhes toda a naturalidade e a torná-los as trágicas vítimas de uma perplexidade sem saída:
De morte natural nunca ninguém morreu/ […] / Não foi para morrer que nós sonhámos/ ser imortais, ter alma, reviver/ ou que sonhámos deuses que por nós/ fossem mais imortais que sonharíamos. / […] // A morte é natural na natureza. Mas/ nós somos o que nega a natureza “
[Fernando Pinto do Amaral, “Uma pequena luz” no meio da treva – Imagens da melancolia na poesia de Jorge de Sena.]
“Jorge de Sena que, de alguma forma, quisera ser surrealista* e continuou, ao longo da vida, a afirmar que a sua obra se antecipara à instauração do surrealismo em Portugal, como movimento, manteve acerca da poesia um conceito eminentemente experimental – e nisso estava perfeitamente integrado no processo em curso nas renovadoras décadas de 50 e 60. “
“Vemos que o conceito de moderno de Jorge de Sena é abrangente e nada tem a ver com as habituais estreitas concepções de “modernismo” e de “modernismos” defendidas por muitos dos nossos críticos mais recentes. Se quisermos utilizar o termo “modernismo” com propriedade, teremos de considerar que modernismo só houve o primeiro (e único), e que não faz nenhum sentido falar da existência de um segundo e um terceiro, ou quantos o delírio do crítico queira inventar.”
*A nota remete para um depoimento de Luís Amaro que relata: “Lembro-me de, provavelmente, no seu primeiro retorno a Lisboa (1969), lhe ter falado nisso, e, a propósito da fase inicial da sua obra, jamais renegada aliás, ele (Sena) me responder tolerante. “Não me admira que você não compreendesse. Eu queria ser surrealista … “
[Gastão Cruz, Jorge de Sena na poesia do seu tempo ou “a arte de ser moderno em Portugal”.
19/03/2008
BEIJO
Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
19/5/1971
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972”]
03/03/2008
BORRAS DE IMPÉRIO IV
Nubar Alexanian
Portugal é feito dos que partem
e dos que ficam. Mas estes
numa inveja danada por aqueles terem
sido capazes de partir, imaginam-lhes a vida
a série de triunfos sonhados por eles mesmos
nas horas de descrerem da mesquinhez em que triunfam
todos os dias. E raivosamente
escondem a frustração nos clamores
da injustiça por os outros lá não estarem
(como eles estão), do mesmo passo
que se ocupam afanosamente em suprimi-los
(não vão eles ser tão tolos –
- a ponto de voltarem).
8/6/1971
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (35).
Portugal é feito dos que partem
e dos que ficam. Mas estes
numa inveja danada por aqueles terem
sido capazes de partir, imaginam-lhes a vida
a série de triunfos sonhados por eles mesmos
nas horas de descrerem da mesquinhez em que triunfam
todos os dias. E raivosamente
escondem a frustração nos clamores
da injustiça por os outros lá não estarem
(como eles estão), do mesmo passo
que se ocupam afanosamente em suprimi-los
(não vão eles ser tão tolos –
- a ponto de voltarem).
8/6/1971
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (35).
BORRAS DE IMPÉRIO III
Nubar Alexanian
Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:
ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja
uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,
ou é com gente dessa que os impérios se fazem,
já que nada glorioso se constrói humanamente
sem 10% de heróis e 90% de assassinos.
Que coisa fedorenta a glória, sobretudo
enquanto não passam séculos e só ruínas
fiquem – onde nem o pó dos mortos
ainda cheire mal.
Jorge de Sena.
Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:
ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja
uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,
ou é com gente dessa que os impérios se fazem,
já que nada glorioso se constrói humanamente
sem 10% de heróis e 90% de assassinos.
Que coisa fedorenta a glória, sobretudo
enquanto não passam séculos e só ruínas
fiquem – onde nem o pó dos mortos
ainda cheire mal.
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (34).
29/02/2008
BORRAS DE IMPÉRIO II
Nubar Alexanian
Há impérios que deixam no deserto ruínas de capitais pomposas.
E há os outros que se desculpam com tremores de terra
de terem passado sobre si mesmos como gafanhotos.
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (33).
Há impérios que deixam no deserto ruínas de capitais pomposas.
E há os outros que se desculpam com tremores de terra
de terem passado sobre si mesmos como gafanhotos.
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (33).
27/02/2008
BORRAS DE IMPÉRIO I
Nubar Alexanian
Os impérios sempre se fizeram
com os que são forçados a fazê-los
e com os que ficam para ser mandados
e cuspidos pelos que querem fazê-los.
Por isso, há nos povos imperiais
algo de um visgo de alma: que ou é cuspo,
ou um prazer dolente como de escarra e cospe.
Jorge de Sena.
Os impérios sempre se fizeram
com os que são forçados a fazê-los
e com os que ficam para ser mandados
e cuspidos pelos que querem fazê-los.
Por isso, há nos povos imperiais
algo de um visgo de alma: que ou é cuspo,
ou um prazer dolente como de escarra e cospe.
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (32).
13/01/2008
NOÇÕES DE LINGUÍSTICA
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguês daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na merda quotidiana de outras.
Caliban, 3/4, 1972
Jorge de Sena.
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (31). Este poema foi postado no absorto em 16/11/2004 a partir de uma edição que o data de 1972. Na edição que li em Cuba o poema é datado de Outubro de 70 e apresenta duas diferenças face a este que reproduzo daquela primeira postagem: gaguez em lugar de gaguês, caca em lugar de merda. Interessante!]
27/12/2007
"PASSANDO ONDE HAJA TÚMULOS..."
Passando onde haja túmulos
- e há pó de humanos sempre onde se passe –
quanta maldade jaz ali dispersa
pronta a ser respirada por outros homens
qua a têm na carne como herança dela:
quanta traição mesquinha range os dentes
e faz as suas contas de futuro:
quanta vileza ainda se espoja em raiva
de não ter sido uma vileza inteira.
E é isto a humanidade.
Mas entre o pó das serras e dos montes
de campos e desertos e florestas,
ou nesse pó que como manto fluido
pousou gelatinoso na mais funda treva
do mar profundo – quanto sonho jaz
de uma grandeza sempre massacrada
traída e condenada por aqueles
que são a humaniddae.
Não foram nunca as circunstâncias nem a história
nem o destino nem a providência
quem matou a grandeza em qualquer coisa
império ou obra ou simples gesto vivo
de ser-se por instantes feliz.
Mas sempre o assassino que se esconde
na outra humanidade.
Passamos entre o pó de assassinados
e o de assassinos. E seremos pó
como eles são. Impunes estes sempre,
inconsolados ainda e sempre aqueles.
Nenhuma paz nos paga da maldade.
27/5/1971
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (30).]
21/12/2007
NATAL DE 1971
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem trás às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homems
devem estender-se a mão?
Novembro 71
.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – dando um pequeno salto na selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (29).]
18/12/2007
EM DES-LOUVOR DA VELHICE
Jon EdwardsPara viver-se longamente ou se é de ferro,
ou vendo um velho penso: quanta gente
assassinou, envenenou, pisou ou destruiu?
Quantas vidas desfeitas há nessa memória
que já se esquece calma pela paz da morte?
Bandidos os humanos, quem não sobrevive
à custa de outras vidas? Quanto sangue,
quanta bondade, quanto de inocência
não devorou feroz e com rosnidos
que são agora as rugas venerandas
e aquele encanto de uma pele trilhada
por azuis róseas pequeninas veias?
Mesmo essa pele quantas vezes não
foi que a largou esfolada no entre pedras,
como a serpente que se despe e passa?
Ou se é de ferro. Ou criminoso antigo
que a si se perdoou do mal que fez
e aos outros perdoou que tenham sido as vítimas.
18/12/1971
Jorge de Sena.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (28).]
12/12/2007
VITA BREVIS
Antonio GesmundoA vida é breve mas que a faz mais breve
não é morrer-se nem morrer quem foi
connosco nela espaço forma e tempo.
Que mais que a morte a humanidade encurta
e torna mais estreita a nossa vida.
Só brevemente e por um breve instante
seu corpo nos concede. E brevemente
é que pensar deseja que existimos.
Antes de mortos, antes de sozinhos
e apenas visitados de memórias,
já todos somos um jornal antigo
deitado fora sem sequer ser lido,
ou somos uma imagem desenhada
na borda do passeio em que se exibem
pisando-a com os pés que desenham
seus mesmos rostos que outros pés já pisam.
A vida é breve, breve, mas mais breve
quanto a quer breve a estupidez humana
fiel ao tempo ainda em que de espaço
o tempo se fazia e o pouco espaço
na terra imensa a todos não chegava.
5/1/1971
Jorge de Sena.
[In “Poesia III” – “Exorcismos - 1972” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (27).]
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