06/09/2007

VESPERTINO DO RIO DE JANEIRO

Posted by PicasaJorge de Sena

Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
na noite em que perpasso qual silêncio.
Não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.

Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.

22/8/1959

Jorge de Sena
.
[In “Poesia III” – “Brasil” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (5)]

BUS

Posted by PicasaFotografia de Família

BUS
BUSio
aBUSio
BUSsola
arBUSto
BUSto
emBUSte
BUS
.
[Uma brincadeira, talvez de 1981, em torno de BUS, petit nom da Guida, minha mulher, no dia do seu aniversário,com algumas palavras inventadas.]

Publicado no absorto em 9 de Maio de 2oo7.

04/09/2007

"RESPIRA DOCEMENTE ..."

Posted by PicasaBarbara Morgan

Respira docemente. Eu sei como respira
tudo o que dorme ao pé de mim. Mas não
que eu nunca durma. A minha vida
muito me adormece. Dentro em mim
há fundos poços de piedade que,
como uma sombra, um halo, uma neblina,
em torno de uma luz que nem distingo,
vão dando sempre a esmola de esquecer
quanto de sonhos ao dormir contemplo,
ora aterrado por terrores que emergem
da própria piedade ressurgente,
ora enlevado por alegres gestos
que nela se submergem como a vida,
mas uns e outros quais temi ou esperei
até ao fim concluso o pensamento
das vislumbradas aparentes formas.

Eu sei como respira. Não soubesse,
ou docemente em mim não respirasse,
e mesmo assim de amor eu ouviria,
dormindo ou acordado, o eco naqueles poços
do amor que me rodeia e toca, enchendo-os
com mais fervor que a vida, mais ternura, mais
carinho, e com silêncio, lágrimas, sorrisos,
e sobretudo, ah sobretudo, uma só mão que pousa.

27/1/1959

Jorge de Sena
[In “Poesia III” – “Portugal” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (4)]

SEM TÍTULO

Posted by PicasaFotografia de Família

no percurso que me trás à casa das memórias
percorro rios de histórias reúno a sós comigo
sinto-me às vezes perdido entre fusos e horas

4/9/2007

[No dia do aniversário de meu pai.]

03/09/2007

VELHO FRAGMENTO. ENCONTRADO E COMPLETADO - CONSELHOS À JUVENTUDE

Posted by PicasaKen Rosenthal

Se, quando consentires,
consentes por metade,
não tomes por virtude
a náusea que te invade.

Toma-a pelo que é:
desejo revoltado
por ser teu, sem que sejas
teu próprio corpo violado.

11/7/1954

Jorge de Sena

[In “Poesia III” – “Portugal” – selecção de poemas resultante da leitura de Julho de 2007 em Cuba. (3)]

02/09/2007

HACIA PAÍS INACCESIBLE

Posted by PicasaTria Giovan

A Helena publicou hoje um poema de Raúl H. Novás. Na minha ante leitura da antologia “Las Palavras son Islas” tinha sublinhado um verso do poema “Muerte de un Payaso”: “Dime madre es que no soy yo mismo?” e o poema: “Hacia País Inaccesible” que aqui deixo num formato adaptado a este suporte:

VIII

“Señores, un viajero de paso …
podrá estar con ustedes hasta mañana,
solo hasta mañana, por última vez, en este cuarto?”

Los hermanos Karamazov, VII, vii.

Y no podré decir nunca cómo éramos
aquella vez en que cenamos juntos, fiel, amablemente …
Éramos jóvenes, sí, y estábamos alegres. Nunca
fuimos tan jóvenes, y hablábamos de nada, sonriendo.
Allí, unos a otros, nos dimos la mirada, las voces
y todo nos hacía recordar lo futuro, y yo temblaba.
“Y tú, tú sola, qué dijiste entonces, di,
oh, sin duda
no era nada importante, ya es muy tarde, sin duda
ya no importa
que no fuese nada interesante,
pero dime aún, di, es tan puro
verte sonreír…”
Y no alentamos, lo adivino,
cada qual en su alta prisión,
verdad? Y aun escuchando y pensando
cada cual en una llave, afirmaremos,
afirmaremos que existe una prisión?
Señores,
un minuto
Señores
(termina la cena, algo muy grato tenía que decirles …),
sólo un momento, una vez más.
Aquí.
Sólo una vez, amigos, y siempre.
Hasta mañana.

Raúl Hernández Novás

01/09/2007

O QUE EU QUERIA

Posted by PicasaPhilippe Pache

O que eu queria não posso pedir que me escapa
a sem razão de o não obter, o que eu queria era
num dia assim aberto um olhar liso e claro
na direcção do meu sorriso que espera longo.
Aguento, aguento-o dia após dia, abro e fecho
a mão, agarro o que eu queria um momento
mas no outro se me cava a ruga funda no meio
da testa e se me enche o fundo da pele de suor.
O que eu queria não o posso dizer senão talvez
a alguém que és tu que já o sabes melhor
do que eu quando digo que não falo mais nisso.
O que eu queria me desses naquele dia maduro
era um sorriso que se fixasse para sempre
no rosto que é o resto que eu tinha posto de fé
na vida para além de mim e do que eu queria.

22/9/1981

[Escrito numa folha de papel A4, ocupando, integralmente, a sua metade superior, a caneta de “tinta permanente”, sem emendas. Suponho que saiu à primeira senão ter-lhe-ia acrescentado, pelo menos, um verso.]